A Chave

A Chave [Capa]

Depois de um pequeno (tá bom, tá bom… grande) atraso – culpa de um relatório de pesquisa que tive que fechar nessas últimas semanas – trago-lhes o prometido terceiro texto falando sobre uma obra de Tanizaki. O livro que escolhi para lhes apresentar dessa vez é o magnífico A chave.

A chave é uma obra curta (creio que “novela”, ao invés de “romance”, seja a classificação mais apropriada), daquelas para se ler numa sentada. O livro, de certa forma, mistura o gênero epistolar com o – tradicionalíssimo no Japão – gênero de diários. Mas como afinal é possível essa mistura? Explico… Toda a narrativa gira em torno de dois diários: um do marido e outra de sua esposa. Acontece que diários são, em essência, escritos pessoais, que não são feitos para serem compartilhados com outras pessoas. Eventualmente acho que até podemos imaginar situações que uma pessoa deixe outrem ler o próprio diário, mas o caso contado no livro, contudo, é distinto. Esposo e esposa escrevem cada qual seu diário com o intuito deliberado que o cônjuge leia. A despeito desse propósito, porém, ambos fingem que não querem ser lidos e, mais do que isso, dissimulam o fato de que sabem que a contraparte lê às escondidas o seu diário. Resumindo: o marido lê o diário da esposa, a esposa lê o do marido, mas todos disfarçam tal ocorrência. Desse modo, um escrito que tem em sua origem uma intenção privada, passa a ser usado para a comunicação entre o casal, se aproximando, então, de uma troca de cartas.

Mas por que raios eles optaram por esse meio excêntrico de comunicação? Simplesmente porque os assuntos abordados feririam a lógica social e, portanto, eram entendidos por ambos como tabus. Sabemos que ainda hoje o Japão é uma sociedade que reprime a sexualidade (não à toa as bizarrices que saem de lá), algo ainda mais intenso na década de 1950, data do livro. Como então falar abertamente de sexo, fetiches, adultério e coisas do tipo? O meio indireto e dissimulado escolhido para o diálogo, logo, se torna apropriado para explorar possibilidades até então socialmente negadas.

Só que o bacana da obra não morre aí. Como os diários são manifestações de discursos diretos, nós leitores somos jogados em meio a um jogo tácito de manipulação, no qual até o silêncio é repleto de significados e não podemos acreditar em quase nada. E quando digo quase nada, eu digo quase nada mesmo! Quanto mais lemos o livro, mas vamos percebendo que ninguém ali é confiável. E isso torna o livro magnífico, pois cada leitor terá elementos suficientes para interpretações bastante plausíveis dos fatos.

A chave é uma obra ousada, evolvente, bem escrita que, além de deleitar, apresenta um enredo simples, mas rico em nuanças. Leitura recomendadíssima!

Nota: 9.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 鍵 (Kagi)
  • Autor: Tanizaki Jun’ichirō (谷崎润一郎)
  • Tradutor: Jefferson José Teixeira (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Companhia das Letras, 2000

Há Quem Prefira Urtigas

Há Quem Prefira Urtigas [Capa]

Quando li um livro do Tanizaki Jun’ichirō pela primeira vez, tive um choque. Até aquele momento todas minhas experiências com romances japoneses me apresentavam um mundo e uma mentalidade, digamos, “fechada”. Eram sempre personagens que se comportavam de acordo com o que é esperado da “face exterior” de um japonês. É verdade que aqui ou ali até podíamos enxergar o lado de dentro desses personagens e é igualmente verdadeiro que muitas vezes o “desnudar” desse lado que o japonês tem de manter oculto da sociedade era justamente o objetivo dos escritores. Todavia, todos caminhavam em direção a esse objetivo de forma bastante sutil. Com Tanizaki, no entanto, foi diferente, pois ele optara por uma abordagem mais direta, forte e sem rodeios. Imaginem, em plena década de 1920, um escritor oriundo de uma sociedade na qual o sexismo imperava (por sinal, até hoje ainda é bem forte) escrever a respeito de uma relação extraconjugal entre duas mulheres! Conforme fui lendo outros livros do autor, percebi que aquele tipo de abordagem se repetia quase sempre. Desnecessário dizer que um escritor competente como Tanizaki não escolheria esse caminho apenas para chocar. Há objetivos por trás dessa opção, mas não entrarei no mérito da questão, até porque hoje quero falar de uma de suas obras mais leves, quiçá a menos chocante delas.

Há Que Prefira Urtigas é a história de um casamento que, depois de alguns anos, só existe formalmente. Kaname e Misako já não têm atração um pelo outro e, portanto, um relacionamento real entre os dois já não é mais possível. A despeito de o casal ter percebido isso e até já terem se decidido pelo divórcio, nenhum dos dois toma o passo decisivo para o rompimento. Muitas coisas entram na conta: como o filho de dez anos lidaria com a separação, a posição dos dois perante a sociedade, as opiniões do sogro de Kaname, etc. A separação, todavia, é inevitável. Misako, por exemplo, já se relaciona com outro homem, caso não só sabido como apoiado por Kaname. Diferentemente de várias outras histórias do Tanizaki, essa é narrada em terceira pessoa e tudo leva a crer que não há espaços para manipulações na narração. Todos os personagens parecem ser expostos de maneira bastante honesta… Embora em terceira pessoa, contudo, a focalização frequentemente está em Kaname, personagem que funciona como um fio-condutor da obra. Bem, talvez não tanto condutor, pois ele é hesitante, indeciso, difuso, covarde até, eu diria. Não é tão difícil se irritar com ele vez ou outra. Isso, entretanto, não é um ponto negativo, pois faz sentido para o enredo esse perfil psicológico do protagonista.

Não é raro encontrarmos elementos que levantam dicotomias (muitas vezes suscitadas pelas personagens femininas da obra, embora não só por elas): Ocidente x Oriente, tradicional x moderno, velho x novo… Não me parece, porém, que Tanizaki pretendesse “escolher” um desses lados, como alguns críticos costumam sugerir. Para mim, o autor localiza a obra numa zona cinzenta intermediária entre os dois polos, tendo em Kaname o grande expoente desse aspecto de indefinição, talvez até uma metáfora do próprio Japão daqueles anos (década de 1920). Julgo Há Que Prefira Urtigas obra fundamental para todos que querem compreender um pouco mais do Japão.

Nota: 8.5 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 蓼喰ふ蟲 [蓼食う虫] (Tade kū mushi)
  • Autor: Tanizaki Jun’ichirō (谷崎润一郎)
  • Tradutora: Leiko Gotoda (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Companhia das Letras, 2003

Em Louvor da Sombra

Em Louvor da Sombra [Capa]

Promessa feita, promessa cumprida! Depois de o Japão aparecer pela primeira vez aqui no blog no meu último texto, ele volta agora numa “trilogia”. Entre aspas, pois, na realidade, os três livros que aparecerão em sequência por aqui, embora do mesmo autor – o genial Tanizaki Jun’ichirō –, não têm entre si conexão lógica, ainda que, claro, possam dialogar aqui ou ali… No caso específico da obra que lhes trago hoje, sendo franco, talvez fosse até mais correto dizer que todos os outros livros do autor estabeleçam um diálogo considerável com este daqui.

Em Louvor da Sombra não é um romance, nem uma novela, muito menos um conto. Tampouco um livro de poesias. É um ensaio… Sim! Um ensaio! Isso por si só já basta para criar a atmosfera de uma obra imponente e somando-se ao fato de que ela versa a respeito da cultura japonesa (assunto inegavelmente bastante complexo), temos pronta a imagem de um livro extenso, intricado e complicadíssimo, certo? Errado! Em Louvor da Sombra é uma obra de apenas sessenta e poucas páginas, escrita numa linguagem notadamente simples e num tom tão leve que faz até parecer que o autor está numa conversa descompromissada com seus leitores. Para terem a ideia do que digo, há dado trecho do livro que o autor descreve com detalhes a receita de um prato da culinária japonesa que ele julga ser um daqueles autênticos representantes da alma japonesa. A despeito dessa forma amena de o autor abordar o assunto, entretanto, o conteúdo é de grande qualidade.

É evidente que um livro com essas características não pode nunca almejar ser compêndio de coisa alguma, ainda mais quando se trata de um assunto espinhoso. Em Louvor da Sombra, no entanto, entrega o que propõe, isto é, uma visão estética da cultura nipônica vista pelo olhar agudo de Tanizaki, mas que em momento algum pretende ser mais do que isso: a apreensão do autor a respeito de seu objeto. Só que, embora seja apenas a visão particular de um homem, a perspicácia de Tanizaki para perceber detalhes, que de tão óbvios são dificílimos de intuir, é digna de nota, como também é admirável a capacidade de sintetizar tudo isso num título. Nesse caso em específico sem precisar me importar com o pudor de não revelar detalhes da obra, pois de um ensaio não se espera as surpresas de um roteiro de romance, posso dizer que a grande sacada de Tanizaki foi justamente notar que o traço que difere os japoneses é o apego pelas sombras. Isso os contraporia aos ocidentais que, segundo o autor, buscam em todos os aspectos de suas vidas a luminosidade. O “louvor” às sombras, portanto, legariam aos japoneses uma visão peculiar das coisas e, em última instância, uma maneira distinta de encarar a vida. Para Tanizaki essa diferença de olhares se manifestaria desde a forma dos banheiros, passando pela arquitetura e chegando até mesmo à cor da pele. Em suma, se para os ocidentais a falta de luz oprimiria, para os japoneses estesiaria.

O ensaio de Tanizaki é curto é fácil de ler, por um lado, mas propõe uma estética muito bem pensada, por outro. Isso por si só já bastaria para endossar a leitura do livro, porém, se adicionarmos a perspectiva que o jogo de luz e sombra leva até às outras obras de Tanizaki – especialmente talvez na construção de seus personagens –, faz com que a leitura de Em Louvor da Sombra seja quase obrigatória para qualquer um interessado na literatura japonesa.

Nota: 9.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 陰翳礼讃 (In’ei raisan)
  • Autor: Tanizaki Jun’ichirō (谷崎润一郎)
  • Tradutora: Leiko Gotoda (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Companhia das Letras, 2007