Meu amigo Totoro (1988)

Tonari no Totoro

Não deve ser surpresa para ninguém que a animação – e sua mídia irmã, os quadrinhos – é uma paixão dos japoneses e, também, uma arte que os nipônicos, desde idos dos anos 1960, têm desenvolvido e inovado reiteradas vezes (tanto no que tange aos aspectos técnicos, como no que concerne à linguagem em si). Se perguntarmos para um japonês quem ele considera o pai dos anime¹ (como os japoneses se referem à “animação”), muito possivelmente teremos como resposta Tezuka Osamu. Mas se a pergunta for “qual seu diretor do coração”, suspeito que obteríamos com certa frequência o nome de Miyazaki Hayao (Tezuka merece alguns textos e certamente aparecerá aqui futuramente).

Miyazaki, junto de Takahata Isao e Suzuki Yoshio, é um dos fundadores do Studio Ghibli, uma das principais empresas de animação do Japão. Inaugurada em 1985, a companhia é tão bem sucedida que entre as quinze animações japonesas de maior bilheteria, 8 foram feitas pelo Ghibli. O nome do estúdio é curioso: Ghibli é uma palavra árabe que nomeia um vento quente que sopra do Saara em direção ao Mediterrâneo (por aqui chamamos esse vento de Siroco). Durante a Segunda Guerra Mundial, entretanto, essa palavra foi usada no nome de um avião de reconhecimento italiano: o Caproni Ca.309 Ghibli. Miyazaki, um entusiasta de aeronaves, escolheu essa palavra para nomear a companhia que estava criando, pois queria que a mesma representasse um sopro “quente” na indústria da animação do Japão.

Tonari no Totoro (“Meu amigo Totoro” na tradução brasileira) não é o primeiro filme do estúdio, tampouco o mais famoso internacionalmente. A despeito disso, a animação foi, desde pouco depois de seu lançamento em 1988, um enorme sucesso no Japão, marcando de forma indelével a história da companhia. A identificação de Totoro com o Ghibli é tão grande que a criatura grandalhona até passou a fazer parte da logomarca da empresa (na verdade, aparecem três “Totoro” no filme; sendo que dois deles estão na logomarca; o grandão e o pequeno).

Logo Studio Ghibli

Logomarca do estúdio

Escrito e dirigido por Miyazaki, Meu amigo Totoro já apresenta todo o esplendor fantástico, misturado com a representação aguçada da infância, aspectos sempre muito bem trabalhados pelo diretor. O enredo acompanha pai e filhas da família Kusakabe que se mudam para um subúrbio rural de Tóquio, ficando, assim, mais próximos da mãe que está internada em um hospital, se recuperando de uma doença (tuberculose, embora só implícito). Logo de cara, as duas pequenas, ao ingressarem pela primeira vez na nova casa, passam por um túnel de árvores e, a partir daí, entram em contato com o fantástico, como se a entrada da nova residência fosse uma espécie de símbolo da passagem entre o profano e o sagrado. Essa estratégia é repetida no filme, com a imagem da passagem pelo “túnel” funcionando como um intermediador entre as duas esferas (a bem da verdade, Miyazaki parece gostar dessa imagem, visto que ela é reiterada em outras de suas obras).

Aqui vale uma observação: não seria um pouco exagero conectar “fantástico” e “sagrado”? Não digo que para todas as ocorrências será esta resposta, mas no caso do Japão e especificamente em relação ao Meu amigo Totoro, creio que a conexão entre os dois seja bastante plausível. Sem alongar muito, explico: o povo japonês ainda hoje tem fortes ligações com o mundo natural e isso influencia na forma como eles percebem o sagrado. Mesmo após a entrada do Budismo no arquipélago, essa forma de se apreender o sobrenatural (que começou a ser sistematizada no século VI com o nome de xintoísmo [shintō, 神道]) permaneceu presente como uma das camadas de “compreensão” religiosa dos japoneses. Ora, a partir disso representar o sagrado como figuras fantásticas oriundas da natureza não é nada absurdo.

Trailer

Digressões à parte, a nova residência da família Kusakabe parece estar pululada de criaturas fantásticas, algo que atrai consideravelmente as duas irmãs: Satsuki e Mei. A propósito, é realmente incrível como Miyazaki sabe retratar bem crianças: o comportamento das duas é muito convincente como, por exemplo, quando a pequena Mei imita tudo que a irmã mais velha faz. Das criaturas fantásticas, decerto as mais interessantes são os “Totoro”. Encontrados pela Mei, quando a menina explorava o jardim da casa, os “Totoro” funcionam como os kami (神) do xintoísmo (espécie de espíritos da natureza… lembram-se do que eu falei da interpolação entre “mundo natural” e “sagrado”?) e vivem numa enorme árvore ali por perto. A árvore, todavia, não é qualquer: ela é um yorishiro, um objeto transformado através de rituais numa morada de um kami, o que reforça a minha leitura da conexão entre “fantástico” e “sagrado” na obra (sabemos que a árvore é um yorishiro por causa da corda amarrada em volta dela). A partir disso, o filme vai se desenrolar explorando a relação entre as duas meninas e os “Totoro” (em especial o grandalhão) e, concomitantemente, o desenvolvimento da doença da mãe.

Embora seja feita para um público infantil, Meu amigo Totoro é uma animação extremamente bem produzida e dirigida, capaz agradar também um público adulto, especialmente por sua atmosfera, nas palavras de Miyazaki, “serena, tranquila e inocente”. Destaca-se sobremaneira o universo fantástico da obra – uma mistura bem dosada das tradições japonesas com criações da mente inventiva de Miyazaki – que pode seduzir qualquer um que queira decifrar um pouco das inspirações do autor. Se uma criança vai se encantar com a arte e com a história, um adulto pode muito bem se instigar com aquilo que fica implícito: o túnel como passagem entre “mundos”; o fantástico que só é visível para as crianças; o explorar do universo sagrado… Enfim, uma excelente pedida para todos!

Nota: 9.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: となりのトトロ (Tonari no Totoro)
  • Ano de lançamento: 1988
  • Diretor: Miyazaki Hayao

Notas:

  1. Abreviação da palavra アニメーション (animēshon), oriunda do inglês “animation”. Vale lembrar que na língua japonesa, ao contrário do que ocorre em determinadas variantes do português brasileiro, palavras terminadas em “e” ou “o” cujas sílabas finais não são tônicas, não sofrem uma alteração vocálica na fala para, respectivamente, “i” e “u”. Isto é, embora “carro” seja escrito com “o”, é comumente pronunciado como “carru” aqui no Brasil. Tal fenômeno não ocorre no japonês e, portanto, a pronúncia mais próxima da palavra アニメ (anime), seria “animê” (e não “animi”). Voltar
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