Raven – 345 S

Raven - 345 S

Hrair Raven Tanielian é uma daquelas pessoas magnéticas que atraem a atenção de todos no ambiente. Eu o conheci em abril deste ano em Ann Arbor (um subúrbio de Detroit) durante um jantar de confraternização dos participantes de um workshop promovido pela universidade local. Enquanto comiam e bebiam, as pessoas se espalhavam pelos cantos da sala de estar da casa da anfitriã e conversavam sobre diversos temas até que, aos poucos, iam deixando o ambiente rumo à cozinha. Intrigado, fui investigar o que se passava e me deparei com uma figura simpática de meia idade, cabelos grisalhos, tatuado e com um estilo rock and roll contando histórias, enquanto fazia performances teatrais para ilustrar os casos que narrava – todos engraçadíssimos, que ele jurava que ele mesmo havia presenciado. Era Hrair. Em pouco tempo, ele se tornou a festa.

Com o avançar da hora as pessoas começaram a ir embora e algumas poucas inconvenientes (eu entre elas) permaneceram, o que permitiu que todos nós nos conhecêssemos melhor. Assim confirmei as minhas suspeitas que Hrair – um armênio-libanês que após anos na Europa se radicou nos EUA – era um artista, um músico mais especificamente, que havia criado um projeto denominado Raven cujo resultado foi a gravação de um álbum, 345 S, em 2008.

A arte na capa do CD é intrigante: uma asa negra, em referência ao título, Raven (corvo, em inglês). Mas ao abrir o encarte, a asa encontra seu par grudados ao corpo de uma mulher nua sob uma forte luz que a torna amórfica, mas com os olhos, boca e cabelos realçados em preto. O detalhe é que a foto foi produzida “artesanalmente”. As asas da modelo foram feitas com grandes penas e galhos por uma artista plástica, dando autenticidade (e alguma excentricidade) ao trabalho.

Mas não há autenticidade maior do que no som do Raven 345 S. Misturando elementos indígenas norte-americanos, com algo de rock progressivo e música do Oriente Médio e Armênia (afinal, este é um blog sobre a arte e cultura do Oriente e é por isso que essa resenha foi escrita para este espaço), a primeira audição do álbum é uma experiência intrigante.

A faixa que abre o álbum é intitulada MCMXV (1915, em algarismos romanos) e faz alusão ao ano que inaugurou a sistemática perseguição aos armênios do Império Otomano no que ficou conhecido como o genocídio armênio (1915-1923). A canção mistura orações e frases em armênio com linhas de guitarra compostas a moda dos instrumentos de corda do Oriente Médio. A mescla entre Oriente e Ocidente continua na faixa seguinte, Tribe after Tribe, quando a típica melodia dos instrumentos de sopro da Armênia – como o duduk – é reconstituída por meio da flauta indígena norte-americana, fabricada artesanalmente, acompanhada por linhas de contrabaixo e percussão. The Red Sand tem uma pegada bem progressiva que irá agradar os fãs do gênero. Em tom menos melancólico do que a MCMXV, o impacto da língua armênia retorna na belíssima The Walk Beyond. Mas, sem dúvida, o clímax do álbum está na penúltima faixa – Raven in the storm – na qual os riffs e solos de guitarra hipnotizam quem ouve. Na faixa final – que é geminada com um bonus track remixado – Children of the Last Forest, a percussão frenética associada com sólidas linhas de contrabaixo e guitarra e a onipresente flauta nativa garantem a qualidade desta grande experiência musical.

Ouça abaixo a faixa-título:

Nota: 10 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Ano de lançamento: 2008