O Ato de Matar [2012]

The Act of Killing

Devastador. Esse é o melhor adjetivo para definir “The Act of Killing“, documentário do cineasta norte-americano, radicado na Dinamarca, Joshua Oppenheimer, indicado ao Oscar de melhor documentário em 2013.

O filme nos leva à distante Indonésia, arquipélago pouco conhecido da maioria de nós (ou ao menos daqueles que não se ligam nos programas de viagens e esportes radicais da TV fechada), mas que é um dos países mais populosos do mundo e o maior país islâmico da Terra. A localização geográfica privilegiada fez com que as potências mundiais a partir do século XVI disputassem o controle das suas mais de 14 mil ilhas, até que, findada a II Guerra Mundial, liderados por Sukarno, os indonésios conseguem a sua independência, repelindo o domínio japonês e a antiquíssima exploração holandesa.

Com a independência, alguns partidos políticos pipocaram na cena política da Indonésia, dentre eles o Partido Comunista Indonésio (PKI, na sigla no idioma local), que em pouco tempo se tornou o maior partido comunista fora do chamado “socialismo real” (MARGOLIN, 1997, p. 271). A crescente influência dos comunistas que pleiteavam os cargos mais altos do governo Sukarno preocupava outras forças políticas do país, que aproveitaram um obscuro golpe militar em 30 de setembro de 1965 para culpar os comunistas por tentarem desestabilizar o país. Desse golpe, emergiu a figura do general Suharto (não confundir com Sukarno), que gradualmente foi ganhando mais poder até depor seu antecessor, proibir o PKI e governar a Indonésia de maneira autoritária (CHALK & JONASSOHN, 2010, p. 487).

Suharto e sua cúpula aproveitaram a instabilidade política para declarar que os comunistas eram os culpados pela crise que o país enfrentava. Em plena Guerra Fria, esse discurso, associado à imagem dos comunistas como ateus famigerados em um país predominantemente islâmico, foi o catalisador de um processo genocidário de maior amplitude do século XX. Em poucos meses – ou semanas – estimam-se que cerca de meio milhão de pessoas morreram, sem contar outras 500 mil que foram presas. Os números são de difícil verificação, pois as estimativas oficiais são provavelmente subestimadas – algo em torno de 80 mil – enquanto as cifras fornecidas pelos próprios perpetradores são inflacionadas a fim de provocar júbilo de seus “elevados feitos” a serviço da nação ao exterminar comunistas (MARGOLIN, 1997, p. 281).

É justamente a permanência do sentimento do perpetrador de que nada de errado aconteceu durante os anos 1960 na Indonésia que Joshua Oppenheimer retrata nesse documentário – que pode ser visto tanto na versão “cortada”, com 1:56h, ou na versão do diretor, que eu vivamente recomendo, com 2:39h – que é difícil de assistir numa sentada só, tamanha a dureza da realidade retratada.

Trailer

A ideia surgiu após Oppenheimer realizar um projeto com uma comunidade agrícola de uma das muitas ilhas do país. Lá, o diretor teve contato com uma tensão presente entre os habitantes e trabalhadores e forças paramilitares, avalizadas pelo Estado, que controlam determinadas cidades e regiões, frutos do golpe de Estado. Alguns anos mais tarde, Oppenheimer decidiu voltar ao país para fazer um documentário sobre esses “donos do poder” e como eles lidam com o passado de massacres e repressão que eles mesmos instauraram, administraram e ainda perpetuam na Indonésia contemporânea.

Logo no início do filme somos apresentados a Anwar Congo, um simpático e vaidoso idoso que demonstra para a câmera de Oppenheimer como ele matou mais de mil “comunistas” nos anos 1960 com a ajuda de um arame, método inspirado nos filmes de gângsteres norte-americanos – que, ao lado das películas de faroeste, são as preferidas de Congo e sua gangue – o que proporcionaria uma morte mais rápida e limpa, evitando o sangue causado por lâminas e balas.

A estratégia do diretor para fazer com que os perpetradores falassem orgulhosamente sobre os seus atos do passado foi oferecê-los para que eles mesmos dirigissem, produzissem e atuassem num filme sobre a política genocida nos anos 1960. Ao lado de Anwar Congo, protagonista desse filme-álibi, está Herman, um membro da Juventude Pancasila – temido grupo paramilitar da região – e Adi, que proporciona um dos momentos mais impactantes do filme, ao dizer que tem plena consciência de que as mortes que causou nos anos 1960 foram frutos de propagandas mentirosas do governo contra comunistas, chineses e outros dissidentes e que a ele pouco importava as convenções internacionais que previam punição para seus crimes, pois, como “vencedor”, caberia a ele escrever as regras.

Outro momento que faz com que o espectador pense duas vezes em continuar a assistir o filme ou não é quando Anwar Congo e seus amigos são entrevistados num popular programa vespertino da TV local, onde são tratados como heróis e aplaudidos a cada vez que repetem como matavam os comunistas há alguns anos atrás. Isso mostra a não ruptura com o regime autoritário e genocida da Indonésia dos anos 1960 e seus sucessores continuam a ditar as regras no arquipélago asiático e por isso seus apoiadores não têm medo ao relatar seus feitos para as câmeras de um norte-americano, país este que eles veem como apoiadores dos massacres de 1965.

Em momentos como hoje, quando acadêmicos e observadores de direitos humanos discutem a estabilidade de países do sudeste asiático como Mianmar – ou Burma – e aqui mesmo no Brasil nós vemos – meio céticos, meio esperançosos – as atuações da Comissão Nacional da Verdade em relação aos crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura militar inaugurada em 1964, The Act of Killing é um golpe nos que acreditam que a História é irreversível, presa no tempo passado e que a melhor solução para os traumas é o tempo. Ingenuidade criminosa. O filme de Oppenheimer nos alerta, ao colocar uma lente de aumento sobre os perpetradores de um genocídio, para a importância de uma transição verdadeiramente democrática e comprometida em olhar para o passado disposto a devassá-lo, não a pretensas conciliações nacionais que escondem esqueletos nos armários e fadam as vítimas de regimes autoritários a viverem com medo e impotentes. Em tempo, Oppenheimer lançou recentemente em festivais europeus o irmão gêmeo de The Act of Killing. Intitulado The Look of Silence, a película dessa vez volta-se para os sobreviventes e suas famílias e cruza suas histórias e dores com os depoimentos dos perpetradores.

Mais do que um documentário doloroso sobre mortes em países exóticos e distantes por motivos pouco claros, The Act of Killing é uma contribuição valiosa ao campo dos Genocide Studies, ao propor analisar os perpetradores ao invés do grupo-alvo, dando a eles espaço para falarem de seus atos enquanto andam pelas ruas e avenidas de suas cidades, inocentes, livres e destemidos. É uma obra fílmica, mas se fosse uma tese de doutorado defendida em qualquer uma das grandes universidades do mundo, seria uma daquelas que marcaria a sua geração.

Para saber mais:

  1. CHALK, Frank & JONASSOHN, Kurt. Historia y sociología del genocidio: análisis y estudio de casos. Buenos Aires: Eduntref/Prometeo libros, 2010.
  2. MARGOLIN, Jean-Louis. Massacres asiáticos In: RICHARD, Guy (org.) A História Inumana: massacres e genocídios das origens aos nossos dias. Lisboa: Instituto Piaget, 1997.

Nota: 10 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: The Act of Killing
  • Ano de lançamento: 2012
  • Diretor: Joshua Oppenheimer, Christine Cynn (codiretor)
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