As Montanhas de Buda

As Montanhas de Buda

Confesso que estava bastante hesitante em começar a ler esse livro. As credenciais da obra não me agradavam muito: um livro que abordava o Budismo (um assunto complexo que muito me interessa, mas que é frequentemente diminuído, quando não tratado de forma completamente errônea aqui no Ocidente), escrito por um espanhol, Javier Moro, autor de best-sellers (fato que adiciona ainda mais incógnitas ao já suspeito conteúdo da obra). Não nego que essa seja uma abordagem um tanto preconceituosa, visto que eu não tinha elementos concretos para fazer uma avaliação honesta, mas creio que concordarão que meu estado reticente não era inteiramente desprovido de razão.

Quando finalmente encarei o texto, entretanto, tive uma surpresa positiva. Primeiro por ter achado que o livro seria romance. Não é! Não totalmente, ao menos. É verdade que a narrativa é romanceada, mas o enredo é não ficcional, chegando a flertar com o documentário, algo que condiz com a formação jornalística de Moro. Junta-se a isso o fato de os acontecimentos narrados se passarem no Tibete –  local cujo nosso conhecimento a respeito costuma ser inversamente proporcional ao quão instigante ele é –, temos motivos de sobra para querer ler o livro até o fim.

Não são somente esses, porém, os atrativos do livro. A história é por vezes intensa, quase sufocante, mas é construída de modo que nos faz sentir a necessidade de continuar acompanhando os penosos passos de Kinsom, a monja budista cuja história serve de fio-condutor para o enredo. As frequentes digressões, intercaladas na narrativa principal, explicam um pouco mais sobre o Tibete e são em si bastante sedutoras, bem como estratagemas úteis para nos mostrar como o “Teto do Mundo” chegou à situação vista pelos olhos de Kinsom.

A despeito de ser um livro que num primeiro momento aparenta tratar de aspectos religiosos, As Montanhas de Buda se aproxima mais de um enfoque político – ainda que, nesse caso, seja impossível não lidar com a religião. E é justamente nessa perspectiva política que talvez resida a principal falha da obra. Moro toma uma posição a respeito da conflituosa relação entre China e Tibete, mas faz de uma maneira quase ingênua, construindo o embate com feições maniqueístas: os perversos chineses contra os puros e sem vícios tibetanos. Sabemos que a História nunca é assim. Então, por exemplo, as ações da CIA, certamente motivadas por interesses, são descritas no texto como se fossem atos quase altruísticos. Isso não invalida – claro! – as críticas e denúncias feitas, que tornam latente a importância de uma política que aproxime os povos e leve um tratamento justo e harmonioso ao Tibete.

As Montanhas de Buda é um valioso documento – apesar de precisar ser lido com certo cuidado – para aqueles que, como eu, querem entender um pouco mais dessa praticamente desconhecida região. Ora duro e pesado, ora sensível e delicado, é uma leitura necessária.

Nota: 7.5 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: Las Montañas de Buda
  • Autor: Javier Moro
  • Edição brasileira: Planeta, 2010
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Nenhum a Menos [1999]

Not One Less poster

Estava pensando qual filme iria escolher para meu segundo – e atrasado – post e me lembrei de um dos meus prediletos: Nenhum a Menos. Não é fácil falar sobre algo que se gosta muito, já que o risco de se exceder em análises subjetivas é um tanto maior. Mas vou me esforçar para ser equilibrado.

Nenhum a Menos é um filme chinês lançado 1999 e dirigido por um dos meus diretores prediletos, Zhang Yimou – vocês ainda me verão falar dele diversas outras vezes. Feito na China continental, o filme é baseado num romance escrito por Shi Xiangsheng, cujo título é “Tiān Shàng Yǒu Ge Tàiyáng” (天上有个太阳). A primeira vez que assisti ao filme não me atentei a essa informação e, quando fui vê-lo novamente para escrever essa “resenha”, acabei por ficar bastante interessado em ler o livro, que aparece com um título em inglês no filme: “A Sun in the Sky”. Cheguei mesmo a procurá-lo para comprar, mas não achei nenhum vestígio dele, logo não sei se essa obra foi mesmo traduzida para o inglês (se alguém souber, me avise!). Enfim, voltando ao filme…

A sensibilidade com que ele foi feito é singular. Tudo no filme é belíssimo! Até mesmo a trilha sonora que costuma me passar despercebida (a não ser quando me incomoda) é capaz de me emocionar. A atuação é digna de nota. Yimou escolheu apenas atores amadores, cujas histórias de vida são parecidas com as dos personagens que interpretam. O resultado não poderia ser melhor. Apesar de, em regra, não terem experiência, o senso de realismo atingido é altíssimo e parece existir um vigor muitas vezes não experimentado em produções profissionais. Cada ator parece encaixar-se perfeitamente no papel. Fora que as crianças têm sorrisos lindos.

Música tema

O filme é sobre a lacuna existente na China entre a zona rural – paupérrima – e a zona urbana – mais desenvolvida –, e o impacto dessa realidade no plano educacional. A vila de Shuiquan é uma das representantes da realidade rural. A única escola da localidade, além de caindo as pedaços, tem dificuldades para suprir os materiais escolares e precisa deixar numa mesma sala de aula – a única – alunos de idades diferentes. O professor, Gao, aparentemente um senhor obstinado na educação das crianças, tem que se ausentar por um mês, devido a uma doença da mãe. Para substitui-lo, o prefeito da pequena vila contrata uma garota de apenas treze anos, que claramente não tem condições para exercer o cargo. Apesar de não ficar nem um pouco satisfeito com a situação, o professor Gao não tem outra escolha a não ser deixá-la assumir sua vaga. A menina, Wei Minzhi, espera ganhar um honorário de 40 yuans pelo trabalho de um mês e o professor Gao promete um adicional de mais 10 yuans caso nenhum aluno abandone a escola nesse período, um dos principais problemas enfrentado nas zonas rurais. Wei Minzhi se mostra uma professora perdida, sem saber como proceder com os alunos e, para piorar tudo, Zhang Huike, o aluno mais desordeiro, abandona a escola rumo à cidade em busca de um trabalho para ajudar a família em grandes dificuldades financeiras. Então, a jovem professora, determinada em cumprir a meta de não permitir que nenhum aluno abandone a escola, parte numa verdadeira jornada atrás de seu aluno.

Um filme sensível, bem feito e realista. Impossível não se emocionar.

Nota: 10.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 一个都不能少 (Yíge Dōu Bùnéng Shǎo)
  • Título em inglês: Not One Less
  • Ano de lançamento: 1999
  • Diretor: Zhang Yimou