Em Louvor da Sombra

Em Louvor da Sombra [Capa]

Promessa feita, promessa cumprida! Depois de o Japão aparecer pela primeira vez aqui no blog no meu último texto, ele volta agora numa “trilogia”. Entre aspas, pois, na realidade, os três livros que aparecerão em sequência por aqui, embora do mesmo autor – o genial Tanizaki Jun’ichirō –, não têm entre si conexão lógica, ainda que, claro, possam dialogar aqui ou ali… No caso específico da obra que lhes trago hoje, sendo franco, talvez fosse até mais correto dizer que todos os outros livros do autor estabeleçam um diálogo considerável com este daqui.

Em Louvor da Sombra não é um romance, nem uma novela, muito menos um conto. Tampouco um livro de poesias. É um ensaio… Sim! Um ensaio! Isso por si só já basta para criar a atmosfera de uma obra imponente e somando-se ao fato de que ela versa a respeito da cultura japonesa (assunto inegavelmente bastante complexo), temos pronta a imagem de um livro extenso, intricado e complicadíssimo, certo? Errado! Em Louvor da Sombra é uma obra de apenas sessenta e poucas páginas, escrita numa linguagem notadamente simples e num tom tão leve que faz até parecer que o autor está numa conversa descompromissada com seus leitores. Para terem a ideia do que digo, há dado trecho do livro que o autor descreve com detalhes a receita de um prato da culinária japonesa que ele julga ser um daqueles autênticos representantes da alma japonesa. A despeito dessa forma amena de o autor abordar o assunto, entretanto, o conteúdo é de grande qualidade.

É evidente que um livro com essas características não pode nunca almejar ser compêndio de coisa alguma, ainda mais quando se trata de um assunto espinhoso. Em Louvor da Sombra, no entanto, entrega o que propõe, isto é, uma visão estética da cultura nipônica vista pelo olhar agudo de Tanizaki, mas que em momento algum pretende ser mais do que isso: a apreensão do autor a respeito de seu objeto. Só que, embora seja apenas a visão particular de um homem, a perspicácia de Tanizaki para perceber detalhes, que de tão óbvios são dificílimos de intuir, é digna de nota, como também é admirável a capacidade de sintetizar tudo isso num título. Nesse caso em específico sem precisar me importar com o pudor de não revelar detalhes da obra, pois de um ensaio não se espera as surpresas de um roteiro de romance, posso dizer que a grande sacada de Tanizaki foi justamente notar que o traço que difere os japoneses é o apego pelas sombras. Isso os contraporia aos ocidentais que, segundo o autor, buscam em todos os aspectos de suas vidas a luminosidade. O “louvor” às sombras, portanto, legariam aos japoneses uma visão peculiar das coisas e, em última instância, uma maneira distinta de encarar a vida. Para Tanizaki essa diferença de olhares se manifestaria desde a forma dos banheiros, passando pela arquitetura e chegando até mesmo à cor da pele. Em suma, se para os ocidentais a falta de luz oprimiria, para os japoneses estesiaria.

O ensaio de Tanizaki é curto é fácil de ler, por um lado, mas propõe uma estética muito bem pensada, por outro. Isso por si só já bastaria para endossar a leitura do livro, porém, se adicionarmos a perspectiva que o jogo de luz e sombra leva até às outras obras de Tanizaki – especialmente talvez na construção de seus personagens –, faz com que a leitura de Em Louvor da Sombra seja quase obrigatória para qualquer um interessado na literatura japonesa.

Nota: 9.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 陰翳礼讃 (In’ei raisan)
  • Autor: Tanizaki Jun’ichirō (谷崎润一郎)
  • Tradutora: Leiko Gotoda (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Companhia das Letras, 2007

O País das Neves

O País das Neves [Capa]

Rufem os tambores. Ascendam os fogos de artifício. Preparem um banquete… Finalmente, depois de longa data, enfim o Japão aparece nesse espaço! Devo admitir certa surpresa – e quem me conhece provavelmente compartilhará meu espanto – por esse fato. E o motivo é um tanto simples: embora eu admire o Oriente como um todo, o Japão é, inegavelmente, o país pelo qual eu projete minhas atenções com mais ardor. Frente a isso hão de concordar que é um tanto estranho essa demora que, reconheço, não sei dizer o motivo. Em compensação, se meus planos forem seguidos à risca, essa longa espera será mais que compensada nas próximas semanas… Sem mais delongas, vamos ao tópico de hoje!

Sou grande fã da literatura japonesa e adoro um punhado de autores do país do sol nascente. O que inaugurará o Japão aqui no blog, no entanto, não foi escolhido simplesmente por eu apreciar sua obra – embora de fato eu seja grande fã. O motivo da escolha é um tanto mais pragmático e se baseia exclusivamente no fato de que ele obtivera amplo reconhecimento internacional e, consequentemente, tenha sido o primeiro escritor japonês laureado com o Prêmio Nobel de Literatura (em 1968): apresento-lhes Kawabata Yasunari!

Kawabata é um daqueles autores que sabem colocar as palavras com tamanha maestria que a simples encadeação delas é capaz de levar o leitor ao gozo profundo. Dono de uma escrita “lírica” que foi considerada pela Academia Sueca de “grande sensibilidade” e a expressão “[d]a essência da mente japonesa”, tenho a impressão que Kawabata consegue provocar com a prosa o mesmo enlevo da poesia. Nesse aspecto, é quase ponto pacífico que O País das Neves seja sua obra-prima.

A obra é uma novela originalmente serializada entre os anos de 1935 e 1937 e que chegou ao Ocidente pelas mãos do estudioso da literatura japonesa, Edward Seidensticker, em sua tradução para a língua inglesa em meados da década de 1950. Lembro-me de uma vez, numa discussão em aula, um colega chegou a dizer que na primeira vez que tinha lido O País das Neves, ao chegar ao fim do livro, não conseguiu captar exatamente qual era seu enredo. Por mais absurdo que posso parecer esta assertiva, a impressão de meu colega não me parece estar de todo equivocada. Não que o livro não tenha enredo. É claro que tem! Mas, especialmente para nós Ocidentais, acostumados com um tipo de trama, O País das Neves pode causar certo estranhamento numa primeira leitura. Mais do que uma história que evolui paulatinamente até o ápice e seu desenlace, O País das Neves é um livro calcado em sensações, cores, sons, cheiros… uma experiência inteiramente sinestésica! Não foram poucas vezes que, em meio a uma cena aparentemente banal, me vi pululado por uma profusão de sensações indescritíveis! Arrisco-me a dizer que O País das Neves é um livro que mais apreendemos do que entendemos. Apesar disso – ou mais apropriado dizer, justamente por isso –, a leitura não é exatamente fácil. Ser capaz de captar todas as camadas de sentidos proposta por Kawabata é tarefa para um leitor maduro. A despeito disso, acho a leitura agradabilíssima e estou certo que O País das Neves é um daqueles livros que precisamos voltar a eles algumas vezes durante nossas vidas e nos deliciarmos com toda uma miríade de novas experiências.

Nota: 9.5 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 雪国 (Yukiguni)
  • Autor: Kawabata Yasunari (川端康成)
  • Tradutora: Neide Hissae Nagae (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Estação Liberdade, 2004

Os Poemas Suspensos [Al-Muʿallaqāt]

Os Poemas Suspensos

Passei anos da minha vida detestando poesias. Lembro-me, por exemplo, como era um suplício as partes que continham cantos n’O Senhor dos Anéis quando li a trilogia no início da minha adolescência. Encarar Gregório de Matos, Gonçalves Dias, Manoel Bandeira, entre outros, nas aulas de literatura do colégio, então, nem se fala… Minha opinião a respeito só começou a se alterar muitos anos mais tarde, após ter tido a possibilidade de acompanhar uma disciplina ministrada por um professor que, além de muitíssimo competente, claramente amava o que fazia. Depois dessa experiência, além de mais maduro e ciente das “ferramentas” necessárias para se fruir a arte poética, passei a compreender melhor o que de fato seria a poesia e, assim, pude, pela primeira vez na minha vida, começar a “entendê-la” em sua essência. Voltei a alguns daqueles autores que me atormentavam e, hoje, sou apreciador de vário deles. Mas o tema do blog é o Oriente, logo não é nenhuma surpresa que seja de lá o texto que trago para esse espaço hoje.

Os Poemas Suspensos (ou Al-Muʿallaqāt no original em árabe) é um conjunto de dez poemas longos, oriundos da Arábia pré-islâmica. Pretensamente a obra-prima dos dez maiores poetas do mundo árabe antigo. A bem da verdade, esse número “dez” é um tanto controverso, pois há quem defenda números um pouco distintos (por exemplo, há compiladores que sugerem sete poemas e, consequentemente, sete poetas). E, sejamos francos, os próprios poemas estão envoltos numa atmosfera um tanto polêmica, visto que chegaram até nós a partir do trabalho executado por compiladores muçulmanos que podem muito bem terem feito uma seleção enviesada ou, pior ainda, falsificado lá ou cá os poemas, no afã de estabelecerem uma oposição entre as “trevas” de mundo pré-islâmico e a “luz” trazida pela nova religião. Polêmicas à parte, vamos nos afundar um pouco mais no texto.

Comecemos pela tradução. Qualquer um que já se aventurou no exercício de traduzir alguma coisa sabe que a tarefa é ingrata. Imagine, então, traduzir um texto antigo de uma cultura consideravelmente diferente da nossa… Esse desafio foi autoimposto pelo escritor carioca Alberto Mussa (autor de, por exemplo, O enigma de Qaf, romance do qual pretendo compartilhar minhas impressões aqui no blog assim que possível). Conta o tradutor que ficou apaixonado pelos poemas “suspensos” no exato momento que pôs os olhos em alguns de seus fragmentos, contidos numa antologia francesa de poesia árabe. A partir daquele momento resolveu traduzi-los para o português. Acontece que Mussa não conhecia árabe, mas sabia que muito se perderia se traduzisse de uma versão do francês ou do inglês. Logo, resolveu aprender o idioma, empresa que lhe ocupou quatro anos. Ainda assim, Mussa confessa que não sabe falar o árabe e ainda tem dificuldades em compreender por completo as frases presentes nos poemas. A tradução, portanto, é excessivamente presa ao sentido, o que tira, é verdade, um pouco do brilho dos poemas. Mas devemos reconhecer que o esforço de Mussa foi considerável e o resultado foi o melhor que ele pôde atingir. Embora seja visível que o tradutor tenha se apoiado no campo sintático-semântico, o texto não é ruim e as ótimas notas inseridas por Mussa nos ajuda a compreender os poemas e as circunstâncias de suas produções.

E isso nos leva aos poemas propriamente ditos… Eles fazem parte de um gênero peculiar aos árabes, denominada qaṣīda. Essa forma poética consiste em um sucessão constante de versos divididos por dois hemistíquios, com métrica e rima fixas. Além disso, a qaṣīda é composta por uma justaposição de temas e unidades separadas. Significa dizer que num mesmo poema há uma transição entre assuntos distintos. No que tange aos Poemas Suspensos, estudiosos identificam, de forma geral, três unidades nas peças (nesta ordem): (1) um lamento erótico/amoroso do poeta quando se depara com os restos do acampamento abandonado pela tribo da mulher amada; (2) uma viagem pelo deserto e a descrição da montaria (cavalo ou camela); e, por fim, (3) a mensagem principal do poema (invectiva, sátira, elogio), direcionada a um destinatário específico. Embora essa seja uma estrutura geral presente na maioria dos poemas, alguns não respeitam exatamente tais unidades temáticas. Todavia, mesmo nos poemas que seguem fielmente esse esqueleto de composição, a forma do poeta abortar cada um desses tópicos é bastante original.

Confesso que gostei mais de um do que de outros e achei particularmente interessante um dos poemas no qual o autor traçava, dado momento, noções vinculadas à efemeridade da vida (num ponto de vista um tanto diferente daquele que estou acostumada a ver no Budismo). O mais legal de tudo, porém, é que os textos são quase como uma viagem à Arábia antiga, e deixam marcado um frescor poético um tanto rude e por vezes brutal (como diz Mussa), mas inegavelmente sensível e verdadeiro. Uma leitura recomendadíssima!

Nota: 8.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: المعلقات (Al-Muʿallaqāt)
  • Autor: Diversos
  • Tradutor: Alberto Mussa
  • Edição brasileira: Record, 2006

Propagandas tailandesas

Hoje tenho um post um tanto diferente – o primeiro da categoria “e outras coisas mais” aludida no subtítulo. Propagandas tailandesas…

Me deparei com essas propagandas por acaso, quando assistia à vídeos no YouTube. Não costumo me interessar muito por peças publicitárias – mentira, adora os comerciais sem menor sentido dos japoneses -, mas senti curiosidade ao ver o título do vídeo, algo como “comovente propaganda tailandesa”. Fui assistir e, uau, era comovente mesmo! Depois do primeiro filmete, acabei procurando por outros e resolvi compartilhar meus achados aqui, pois considero as mensagens muito bonitas.

Antes, um comentário: é interessante a forma utilizada para promover os produtos, já que o enredo do vídeo parece receber uma atenção maior que o próprio produto. Nesse primeiro vídeo, por exemplo, só depois de uma pesquisa no Google que pude descobrir que a empresa promovida presta serviços de comunicação. Ah! Já vou adiantando que sou coração de manteiga e chorei em vários desses vídeos, então esteja devidamente alertado caso seja uma pessoa emotiva como eu. Prepare a caixinha de lenços de papel e vamos lá!

No segundo vídeo, fica mais evidente qual a marca promovida. Perde muito da sutileza do primeiro, mas ainda assim considero uma boa peça.

Por fim, deixo uma série de comerciais de empresas de seguro. Uns são melhores, outros piores… Uns mais tristes, outros mais leves… A despeito disso, considero-os suficientemente bonitos para figurarem aqui.

Espíritos – A Morte está ao Seu Lado [2004]

Shutter poster

Vou ignorar que se passou mais de um ano do meu último post e fingir que só demorei pouco mais de uma semana, ok? Vejam, faz sentido: meu último texto foi dia 08 de fevereiro… O ano é só um detalhe, vai. Agora que todos estão de acordo com isso (todos estão, não é verdade?), vamos ao que interessa.

Nunca fui muito ligado a histórias de terror. Passei boa parte da minha vida não tendo contato algum com elas, incluindo aí livros e filmes. Por algum motivo que não sei precisar, todavia, senti há um tempinho uma inexplicável atração pelo gênero e comecei a consumir obras desse filão com bastante afã. Evidente que os anos de completo descaso me fizeram um perfeito ignorante para com o horror, e mesmo uma exposição intensiva não me dão bases críticas minimamente adequadas para avaliar com rigor uma obra desse gênero. Mesmo assim, um filme me chamou a atenção e, portanto, resolvi compartilhar minhas impressões nada especializadas nesse espaço.

Espíritos – A Morte está ao Seu Lado é um filme lançado em 2004 na distante Tailândia, dirigido por Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom. Até eu que sou neófito no gênero sei que a Ásia – em especial o Japão, talvez – é famosa pelos seus filmes de terror, então fui assistir a película esperançoso de que teria uma experiência marcante… e não me decepcionei!

Trailer

Um jantar com amigos, regado a muita bebida e na companhia da bela namorada. Um agradável momento no qual todos ali se divertiam, enquanto lembravam lá e cá histórias da época do colégio. Aparentemente uma noite auspiciosa… Todavia, voltando para casa, Tun (Ananda Everingham) e Jane (Natthaweeranuch Thongmee) acabam por atropelar uma moça. Desesperados, fogem da cena sem ao menos verificar se a menina estava viva ou morta. Embora livres de qualquer sanção legal, o incidente não deixa de atormentá-los e, por mais que aquilo os incomodasse, a vida tinha que seguir. Ambos, portanto, tentavam manter suas rotinas na faculdade e no trabalho, mas uma série de curiosos fenômenos começa a ocorrer: barulhos estranhos, luzes que se apagam sozinhas, sonhos terríveis, vultos inexplicáveis em fotos… Seriam aquilo meros reflexos psicológicos do trauma causado pelo acidente ou havia ali algo de sobrenatural? Talvez o espírito da menina atropelada quisesse vingança? É mais ou menos a partir dessas perguntas que o enredo vai se desenrolando. E se o argumento a princípio é demasiadamente simples, apenas um conceito para justificar uma série de sustos, ele vai se complexando a ponto de se tornar um dos pontos fortes do filme.

Mas talvez o mais espetacular do longa seja o clima. Poucas obras conseguem criar uma atmosfera de terror tão bem. Diversos elementos colaboram para tanto: jogo de câmeras, ambientação, luz, trilha sonora e, principalmente, a escolha da atriz que antagoniza com Tun e Jane. É claro que os sustos causados por barulhos altos e inesperados estão presentes, mas é esse clima que permeia toda a obra que vai lhe dar angústia e, vez ou outra, um calafrio. Um ótimo filme para ser assistido sozinho, com a luz apagada e no meio da madrugada.

P.S.: No Brasil foi lançado Espíritos 2, mas embora o título sugira ser uma sequência, não há nenhuma relação com esse filme aqui.

Nota: 8.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: ชัตเตอร์ กด ติด วิญญาณ
  • Título em inglês: Shutter
  • Ano de lançamento: 2004
  • Diretor: Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom

As Montanhas de Buda

As Montanhas de Buda

Confesso que estava bastante hesitante em começar a ler esse livro. As credenciais da obra não me agradavam muito: um livro que abordava o Budismo (um assunto complexo que muito me interessa, mas que é frequentemente diminuído, quando não tratado de forma completamente errônea aqui no Ocidente), escrito por um espanhol, Javier Moro, autor de best-sellers (fato que adiciona ainda mais incógnitas ao já suspeito conteúdo da obra). Não nego que essa seja uma abordagem um tanto preconceituosa, visto que eu não tinha elementos concretos para fazer uma avaliação honesta, mas creio que concordarão que meu estado reticente não era inteiramente desprovido de razão.

Quando finalmente encarei o texto, entretanto, tive uma surpresa positiva. Primeiro por ter achado que o livro seria romance. Não é! Não totalmente, ao menos. É verdade que a narrativa é romanceada, mas o enredo é não ficcional, chegando a flertar com o documentário, algo que condiz com a formação jornalística de Moro. Junta-se a isso o fato de os acontecimentos narrados se passarem no Tibete –  local cujo nosso conhecimento a respeito costuma ser inversamente proporcional ao quão instigante ele é –, temos motivos de sobra para querer ler o livro até o fim.

Não são somente esses, porém, os atrativos do livro. A história é por vezes intensa, quase sufocante, mas é construída de modo que nos faz sentir a necessidade de continuar acompanhando os penosos passos de Kinsom, a monja budista cuja história serve de fio-condutor para o enredo. As frequentes digressões, intercaladas na narrativa principal, explicam um pouco mais sobre o Tibete e são em si bastante sedutoras, bem como estratagemas úteis para nos mostrar como o “Teto do Mundo” chegou à situação vista pelos olhos de Kinsom.

A despeito de ser um livro que num primeiro momento aparenta tratar de aspectos religiosos, As Montanhas de Buda se aproxima mais de um enfoque político – ainda que, nesse caso, seja impossível não lidar com a religião. E é justamente nessa perspectiva política que talvez resida a principal falha da obra. Moro toma uma posição a respeito da conflituosa relação entre China e Tibete, mas faz de uma maneira quase ingênua, construindo o embate com feições maniqueístas: os perversos chineses contra os puros e sem vícios tibetanos. Sabemos que a História nunca é assim. Então, por exemplo, as ações da CIA, certamente motivadas por interesses, são descritas no texto como se fossem atos quase altruísticos. Isso não invalida – claro! – as críticas e denúncias feitas, que tornam latente a importância de uma política que aproxime os povos e leve um tratamento justo e harmonioso ao Tibete.

As Montanhas de Buda é um valioso documento – apesar de precisar ser lido com certo cuidado – para aqueles que, como eu, querem entender um pouco mais dessa praticamente desconhecida região. Ora duro e pesado, ora sensível e delicado, é uma leitura necessária.

Nota: 7.5 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: Las Montañas de Buda
  • Autor: Javier Moro
  • Edição brasileira: Planeta, 2010

Nenhum a Menos [1999]

Not One Less poster

Estava pensando qual filme iria escolher para meu segundo – e atrasado – post e me lembrei de um dos meus prediletos: Nenhum a Menos. Não é fácil falar sobre algo que se gosta muito, já que o risco de se exceder em análises subjetivas é um tanto maior. Mas vou me esforçar para ser equilibrado.

Nenhum a Menos é um filme chinês lançado 1999 e dirigido por um dos meus diretores prediletos, Zhang Yimou – vocês ainda me verão falar dele diversas outras vezes. Feito na China continental, o filme é baseado num romance escrito por Shi Xiangsheng, cujo título é “Tiān Shàng Yǒu Ge Tàiyáng” (天上有个太阳). A primeira vez que assisti ao filme não me atentei a essa informação e, quando fui vê-lo novamente para escrever essa “resenha”, acabei por ficar bastante interessado em ler o livro, que aparece com um título em inglês no filme: “A Sun in the Sky”. Cheguei mesmo a procurá-lo para comprar, mas não achei nenhum vestígio dele, logo não sei se essa obra foi mesmo traduzida para o inglês (se alguém souber, me avise!). Enfim, voltando ao filme…

A sensibilidade com que ele foi feito é singular. Tudo no filme é belíssimo! Até mesmo a trilha sonora que costuma me passar despercebida (a não ser quando me incomoda) é capaz de me emocionar. A atuação é digna de nota. Yimou escolheu apenas atores amadores, cujas histórias de vida são parecidas com as dos personagens que interpretam. O resultado não poderia ser melhor. Apesar de, em regra, não terem experiência, o senso de realismo atingido é altíssimo e parece existir um vigor muitas vezes não experimentado em produções profissionais. Cada ator parece encaixar-se perfeitamente no papel. Fora que as crianças têm sorrisos lindos.

Música tema

O filme é sobre a lacuna existente na China entre a zona rural – paupérrima – e a zona urbana – mais desenvolvida –, e o impacto dessa realidade no plano educacional. A vila de Shuiquan é uma das representantes da realidade rural. A única escola da localidade, além de caindo as pedaços, tem dificuldades para suprir os materiais escolares e precisa deixar numa mesma sala de aula – a única – alunos de idades diferentes. O professor, Gao, aparentemente um senhor obstinado na educação das crianças, tem que se ausentar por um mês, devido a uma doença da mãe. Para substitui-lo, o prefeito da pequena vila contrata uma garota de apenas treze anos, que claramente não tem condições para exercer o cargo. Apesar de não ficar nem um pouco satisfeito com a situação, o professor Gao não tem outra escolha a não ser deixá-la assumir sua vaga. A menina, Wei Minzhi, espera ganhar um honorário de 40 yuans pelo trabalho de um mês e o professor Gao promete um adicional de mais 10 yuans caso nenhum aluno abandone a escola nesse período, um dos principais problemas enfrentado nas zonas rurais. Wei Minzhi se mostra uma professora perdida, sem saber como proceder com os alunos e, para piorar tudo, Zhang Huike, o aluno mais desordeiro, abandona a escola rumo à cidade em busca de um trabalho para ajudar a família em grandes dificuldades financeiras. Então, a jovem professora, determinada em cumprir a meta de não permitir que nenhum aluno abandone a escola, parte numa verdadeira jornada atrás de seu aluno.

Um filme sensível, bem feito e realista. Impossível não se emocionar.

Nota: 10.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 一个都不能少 (Yíge Dōu Bùnéng Shǎo)
  • Título em inglês: Not One Less
  • Ano de lançamento: 1999
  • Diretor: Zhang Yimou

Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo [2010]

Prince of Persia poster

Escolhi falar desse filme pelo simples fato de ter sido o último que assisti. Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo é uma produção hollywoodiana dos estúdios Disney. Lançado em 2010, o filme é baseado em um jogo de computador e videogames homônimo, de 2003, que por sua vez, é uma recriação de um ainda mais antigo, de 1989 (que – adivinhem! – também se chamava Prince of Persia). Apesar desse fato, as semelhanças entre o jogo de 2003 e o filme são restritas, isso porque o longa-metragem recebeu um roteiro original.

Sands of Time 2003 cover Prince of Persia 1989 cover
Imagens: Capa dos jogos. À esquerda, Prince of Persia: Sands of Time, de 2003. À direita, o primeiro Prince of Persia, de 1989.

O filme tem tudo que se pode esperar de uma produção de Hollywood: bons figurinos, efeitos especiais bem executados, cenas de ação dinâmicas… As atuações são apenas ok e o enredo, claro, não é o dos melhores. Mas o filme não é ruim e eu até consegui me divertir assistindo-o. Parece-me que Príncipe da Pérsia é uma clara evolução nas adaptações para a telona dos jogos de videogame.

A história do filme acompanha Dastan (Jake Gyllenhaal), um menino órfão de ambos os pais que cresceu na periferia de Nasaf, na Pérsia. Apesar da infância difícil, Dastan teve sua vida completamente alterada após ser adotado pelo rei, depois que este presenciou um ato de coragem e justiça realizado pelo órfão. Somos então transportados para um acampamento do exército persa nas imediações de Alamut, quinze anos depois dos eventos iniciais do filme. A cúpula do exército persa, comandada por Tus (Richard Coyle), “irmão” de Dastan e príncipe herdeiro do império, discute informações obtidas de espiões: a bela cidade estaria produzindo armas de grande qualidade técnica e vendendo-as para inimigos da Pérsia. Apesar de o exército ter se deslocado até ali apenas para derrotar um general inimigo, as novas informações alteram os planos iniciais. O exército atacará Alamut para neutralizar a ameaça oferecida pela cidade.

Enquanto isso, Tamira (Gemma Arterton), a bela princesa de Alamut, percebendo as intenções persas, começa preparativos para defender a cidade. Todavia, ao invés de se preocupar com as muralhas e portões, Tamira volta suas atenções para algo misterioso, com feições místicas, que fica no interior da cidade (só saberemos exatamente o que é com o decorrer do filme). O ataque acontece e conta com a participação decisiva de Dastan que com suas acrobacias consegue praticamente sozinho abrir um dos portões da cidade. A vitória dispara uma série de clichês que vão conduzir o resto do enredo: traições, busca de poder, inimigos que viram amigos, histórias de amor entre antagonistas, jornada para salvar o mundo de um cataclismo, enfim, elementos frequentemente vistos em blockbusters.

Não me estenderei mais para não estragar a graça de se assistir o filme. Mas digo que mesmo que o enredo seja rasteiro, o filme tem suas qualidades e serve muito bem para se divertir num sábado à tarde. É claro que o filme pouco explora do que foi a Pérsia e acaba recorrendo a diversos lugares-comuns, então não o assista querendo ver nada mais profundo. Desligue o cérebro e divirta-se.

Nota: 5.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: Prince of Persia: The Sands of Time
  • Ano de lançamento: 2010
  • Diretor: Mike Newell
  • Elenco: Jake Gyllenhaal, Ben Kingsley, Gemma Arterton, Alfred Molina

Sobre o blog

Bem-vindos ao blog “Oriente-se”. Como o primeiro post desse espaço, nada mais apropriado que expor à que ele veio. Segundo o admirável dicionário de Antônio Houaiss, o verbo “orientar” (cuja primeira pessoa do presente do subjuntivo é “oriente”) pode significar, entre outras coisas, indicar a direção, guiar, influenciar, instruir, direcionar, estimular, incentivar… Hão de notar que palavras pertencentes a esses campos semânticos são apropriadas para a proposta desse blog que, se ainda não revelei, é a de tecer minhas opiniões acerca de obras cinematográficas e literárias, mas, quem sabe, também de outros assuntos, como música, arte e tudo mais que eu achar pertinente.

O título do blog estaria, então, explicado, certo? Temo dizer que não, ou melhor, parcialmente e, importante dizer, apenas de maneira secundária. Explico… Ao escolher o título desse blog optei por uma abordagem lúdica da palavra “oriente”, tentando explorar a homonímia possibilitada pela língua portuguesa. Ora, “oriente” além de poder ser um verbo (como explorado acima), pode também ser um substantivo, que faz referência à porção mais ao leste de nosso planeta. Para fins de entendimento, considerarei como “Oriente” toda a Ásia e o Oriente Médio, incluindo aí a parte norte da África.  Reelaborando: entendo aqui o Oriente como sendo do Japão ao Marrocos, passando pela China, Índia, Irã, Turquia – por que não? –, Iraque, Egito…

Meu objetivo com o blog, portanto, é comentar sobre assuntos ligados ao apaixonante Oriente – do qual pouco sabemos – de modo que, oxalá, possa despertar (ou, como evoca o verbo “orientar”, estimular, incentivar…) o interesse de quem por ventura passar por aqui. Espero, com isso, no mínimo ter a possibilidade de escrever sobre algo que, mais do que me fascina, me é uma necessidade. Se nessa empresa eu puder agradar alguém e, melhor ainda, descobrir outros “loucos” como eu, os dividendos, então, serão incomensuráveis.

Um último esclarecimento se faz importante. Não terei nenhum tipo de preconceito quanto a gêneros e estilos. Sei o que “cobrar” de um best-seller e o que esperar de um clássico. Aguardem um material diversificado por aqui… Além disso, não pretendo fazer verdadeiras análises críticas e não esperem textos de profunda erudição (na boa acepção da palavra). Não que eu não goste de textos meticulosamente construídos, mas simplesmente quero algo mais simples, numa linguagem que – quem sabe? – eu falaria com um amigo em um bar. Pretendo atualizar com regularidade o blog, mas as condições que a vida nos impõe nem sempre são favoráveis, logo posso ter que me ausentar por períodos mais longos. Mas me esforçarei para escrever pelo menos uma vez por semana. Para finalizar, sintam-se livres para me contatarem. Prometo ler e responder a todos os e-mails, mesmo que demore um pouco.

No mais, espero que a estadia de vocês por aqui seja tão agradável quanto o tempo que me dedicarei a esse espaço.

Rafael