Um milionário em Lisboa

Um milionário em Lisboa

Alguns meses atrás, eu publiquei aqui as minhas impressões sobre “O Homem de Constantinopla”, primeira parte do romance biográfico sobre Calouste Gulbenkian, o armênio que marcou no seu nome na história do petróleo, e prometi voltar com um texto sobre a segunda parte dessa história. Cá estou para cumprir o combinado e, em linhas gerais, comentar “Um Milionário em Lisboa”, também publicada pela editora portuguesa Gradiva.

A segunda parte do romance escrito pelo jornalista português José Rodrigues dos Santos começa com o velho recurso de início pelo fim, para depois deixá-lo de canto enquanto a história preenche a lacuna deixada na narrativa, até que as últimas páginas do livro encontrem as primeiras. Após o flash-forward, a história retorna para onde ela parou na primeira parte: a busca de Krikor, filho do milionário Kaloust Sarkisian, por sua “amada” que havia voltado para o Império Otomano após uma temporada na Europa, onde se conheceram. Ir e vir da Europa para o interior otomano não seria lá um grande desafio para o filho de um dos homens mais ricos do mundo nos anos 1910, se isso não acontecesse durante a Grande Guerra, quando o governo otomano ocupado pelos Jovens Turcos iniciou um processo sistemático de extermínio dos armênios do Império, o que ficou conhecido como genocídio armênio.

Assim, a primeira parte da obra se passa com o jovem Krikor na cidade de Kayseri, em companhia de sua noiva, de onde são deportados rumo aos desertos da Mesopotâmia juntamente com toda a população armênia da região. Páginas e mais páginas são gastas com os pormenores da deportação e do sofrimento dos armênios que compunham a caravana, bem como com as estratégias de sobrevivência ante os desafios do deserto e dos assaltos de bandos armados que, frequentemente, se lançavam sobre os deportados a fim de obter algum bem que eles carregavam e, por ventura, mulheres e crianças que passariam a viver no interior de famílias curdas ou turcas. Ainda que romanceado, os relatos possuem lastro histórico, não sendo tão discrepantes daqueles narrados por observadores da época e exaustivamente trabalhos pela historiografia do genocídio. Contudo, não possuem o mesmo realismo da narrativa de Mark T. Mustian em Gendarme.

Com Krikor no Império Otomano e Kaloust na Europa, os capítulos são alternados entre os dois personagens. Enquanto o filho passa por todo o tipo de privações no Oriente, o pai busca-o incessantemente por meio de contatos na burocracia otomana, enquanto toca seus negócios a partir de Londres. Novamente – como aconteceu em “O Homem de Constantinopla” – a narrativa dos bastidores das negociações milionárias e, muitas vezes, pouco honrosas, da negociação de petróleo no começo do século XX são mais atraentes ao leitor do que o romance de Krikor e a sua luta para sobreviver ao genocídio. Nada muito surpreendente, tendo em vista que é Calouste Gulbenkian, ou melhor, Sarkisian, o personagem principal de ambos os livros. Por isso, não se sinta culpado(a) se as artimanhas do velho Sarkisian para otimizar seus lucros nas negociatas do petróleo te prenderem mais do que a saga de seu filho durante a perseguição promovida pelo governo otomano. O culpado é o autor, que inseriu o massacre de um milhão de armênios a partir de 1915 como pano de fundo de uma biografia que tem pouca relação com o genocídio, numa tentativa de cativar o leitor evocando o sofrimento de um povo em um momento em que a luta pelo reconhecimento desse crime contra a humanidade ganha mais espaço e atenção no cenário mundial, com a proximidade do centenário de seu início – 1915-2015. Contudo, ainda que soe um pouco forçada a inserção do genocídio no romance, não se pode dizer que dos Santos não tenha mergulhado em pesquisa histórica para compor essa passagem. Referências às lideranças otomanas como Mehmet Talaat Paxá, arquiteto do genocídio, ou à guinada nacionalista turca da década de 1910, com o abandono do otomanismo pelo turquismo são dignas de nota. Porém, ao contrário do que fizeram Mark Mustian (Gendarme) e Edgar Hilsenrath (The story of the last thought), Santos não consegue evitar a queda em lugares-comuns como descrever a morte, abandono ou venda de crianças pelas próprias mães durante as deportações genocidas, recurso comum em novelas que buscam popularidade.

Como disse, o ponto forte do livro é a astuta figura de Kaloust Sarkisian e suas estratégias para sobreviver no arriscado ramo petrolífero no agitado século XX. São especialmente divertidas as passagens que o protagonista consegue dar um nó em raposas velhas do petróleo, driblar as autoridades nazistas na França ocupada e desestabilizar figuras do porte de Winston Churchill ou Salazar.

Exageros poéticos a parte – e talvez o maior desses exageros seja as passagens carregadas de tinta ufanista sobre Portugal, país para o qual Sarkisian/Gulbenkian se mudou em busca de tranquilidade fiscal e administrativa para seus negócios – Um milionário em Lisboa é um bom livro e, sobretudo, um bom desfecho para O homem de Constantinopla. Reitero os votos que fiz há seis meses, quando publiquei a resenha da primeira parte da história, para que ambos os títulos sejam publicados no Brasil em breve e, assim, ajude a criar mais interesse no leitor brasileiro sobre o povo armênio, o Império Otomano e sobre uma das principais figuras que viveram em Portugal no século passado, cujos desdobramentos presenciamos até hoje.

Nota: 7.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Autor: José Rodrigues dos Santos
  • Edição (Portugal): Gradiva, 2013

O Homem de Constantinopla

O Homem de Constantinopla

Meses atrás, recebi da editora Gradiva de Portugal – por intermédio dos editores do Portal Estação Armênia – as belíssimas edições do romance biográfico de Calouste Gulbekian, businessman armênio que fez fortuna no começo do século XX, intermediando as negociações de petróleo dos campos de Baku e Mesopotâmia com as grandes corporações ocidentais. Pelos seus serviços, cobrava uma comissão de 5%, o que o levou a ser conhecido pela alcunha de “Mr. Five Percent”. Hoje, contudo, Gulbenkian é mais conhecido pela fundação que leva o seu nome do que pelos seus feitos como homem de negócios que o alçaram ao posto de um dos homens mais ricos de seu tempo.

A história de vida do excêntrico bilionário rendeu algumas biografias e muitas lendas ao longo dos anos, principalmente em Portugal, para onde se mudou em 1942 fugindo dos problemas causados pela II Guerra Mundial na França, e onde se encontra a Fundação, mundialmente conhecida, sobretudo, pelos que estudam História da Arte – uma das paixões de Gulbenkian era colecionar obras de arte – e procuram na entidade financiamento para pesquisas.

É justamente de Lisboa que vem os livros “O Homem de Constantinopla” e “Um Milionário em Lisboa”, títulos do romance escrito em dois volumes pelo jornalista português José Rodrigues dos Santos, célebre homem de letras em Portugal, mas pouco conhecido deste lado de cá do Atlântico. Fecundo escritor, dos Santos tem uma dúzia de romances publicados, além de ser doutor em Ciências da Comunicação, professor da Universidade Nova de Lisboa e colaborador de grandes veículos midiáticos como BBC e CNN. O currículo e o prestígio do autor o qualificaram para ser o homem a dar tintas de romance à biografia de um homem público, rico e muito influente. Uma tarefa dúbia: se a quantidade de informações ofertadas sobre Gulbenkian “facilitariam” o trabalho do escritor, certamente há vigilância em torno da memória do mecenas e homem de negócios cujos herdeiros têm interesse em preservar. Nas linhas a seguir, darei as minhas impressões sobre o primeiro volume dessa biografia, “O Homem de Constantinopla”.

Nessa obra, conhecemos Kaloust Sarkisian – nome do personagem que corresponde ao real Calouste Sarkis Gulbekian – que no leito de morte em Lisboa recebe a visita do filho, Krikor, para quem dirige as suas últimas palavras: “O que é a beleza?”. Angustiado para saber o significado dessa frase mezzo-Wilde, mezzo-Kundera, Krikor revira os pertences do recém-falecido pai a fim de descobrir a resposta para a indagação suspirada pelo homem moribundo, quando encontra cadernos manuscritos pelo patriarca nos quais havia rascunhado sua autobiografia, desde a infância na cidade otomana de Trabzon, onde nascera em 1869 e fora criado sob a rigidez de uma abastada família armênia, cuja riqueza era oriunda do comércio de tapetes e de cargos ocupados na burocracia otomana. Com o passar dos anos, o pai de Kaloust – Vahan – consegue, por meio de contatos escusos e obscuros no governo, uma licença do sultão para intermediar a importação de querosene de Baku e Batum e assim a família do interior se muda para a capital, Constantinopla, onde multiplicam a fortuna e matriculam o filho no Robert College (escola norte-americana que seria o embrião da conceituada Universidade do Bósforo).

O problema começa quando o esfacelamento das possessões otomanas nos Bálcãs leva o Império a uma crise sem precedentes e o sultão Abdul-Hamid II promove uma série de perseguições e massacres contra as minorias cristãs, principalmente os armênios. Em meio ao turbilhão político da última década do século XIX, a família ainda consegue fechar vantajosos negócios e manda o jovem Kaloust estudar Engenharia na Inglaterra, onde entra em contato com a sociedade europeia, com o mundo das artes, negócios e claro, sexo. Obcecado pela beleza, Kaloust visita galerias e exposições, conhece artistas e adquire pinturas para a sua contemplação. Ao mesmo tempo, preocupado com a velhice, se relaciona com adolescentes por “prescrição médica” na esperança que ao compartilhar a cama com jovens meninas o fizesse recuperar a vitalidade, numa típica manifestação da “síndrome de Dorian Gray”, velha conhecida dos psicanalistas e  porto seguro para os escritores. Em meio a negociações de petróleo, de contratos de exploração e de fornecimento para governos, verificamos a audácia e destreza de Kaloust para os negócios – talento que demonstra ter desde criança nos mercados de Constantinopla – em rodas de conversas com políticos e empresários baseados em figuras reais, o que prende a atenção e despertam o interesse do leitor.

Deixando o enredo de lado, cabe ressaltar que o livro é baseado em uma sólida pesquisa histórica, principalmente no que tange aos meandros da história do petróleo no primeiro quartel do século XX – da formação das grandes companhias como a Shell e dos bastidores das negociações de grandes contratos – quanto de fatos da vida de Gulbenkian, quero dizer, Sarkisian. De fato, um trabalho louvável.

No que tange à “questão oriental” e à “questão armênia”, a narrativa é menos convincente. Ainda que os acontecimentos relatados encontrem fundamentação historiográfica – merecem destaque as menções que o autor faz às ações dos partidos revolucionários armênios em busca de direitos no Império e à corrupção e patrimonialismo na burocracia otomana – a construção dos personagens é um tanto quanto óbvia. Desagrada-me particularmente a “consciência histórica” que os personagens demonstram ter acerca dos massacres e das perseguições que sofriam no Império, vitimizando-os em demasia. Uma estratégia narrativa bem diferente daquela de Franz Werfel – Os 40 Dias de Musa Dagh (Paz e Terra, 1995) – e Edgar Hilsenrath – do formidável The Story of the Last Thought (Scribners, 2000) – cujos personagens eram psicologicamente complexos e espelhavam o caos do Império Otomano da virada do século XIX para o XX, ao invés de serem oniscientes, como se a população média otomana tivesse total domínio das vicissitudes da política do Império e do sistema internacional. Passagens como esta são especialmente cansativas:

Na Europa falam em liberdade, igualdade e fraternidade e essas ideias estão a espalhar-se pelas nossas comunidades como fogo em erva seca. Queremos igualdade e queremos liberdade, mas os Turcos respondem com a espada. Graças a Deus as potências europeias, todas elas cristãs, têm-nos ajudado e feito guerra aos Turcos e exigindo protecção às minorias. (p. 53)

Por outro lado, esse tipo de narrativa torna a obra leve, de fácil leitura e assimilação e é perfeita para atingir grandes públicos que procuram livros “agradáveis” – palavra pouco adequada para definir obras que abordam, ainda que tangencialmente, o massacre de armênios – como aqueles que ficaram conhecidos nos EUA pelo rótulo de Airport Novels. Não por acaso o autor recebeu o selo “Escritores de confiança – 2013” da Seleções do Reader’s Digest, a mãe dos livros de aeroportos.

Devemos louvar, todavia, a coragem de José Rodrigues dos Santos, em devassar a vida do patriarca de uma das famílias mais influentes no mundo, abordando inclusive assuntos polêmicos como a pedofilia e as práticas comerciais, digamos, “não-ortodoxas”. Em tempos que as biografias no Brasil estão na mira de “guardiões da memória”, a ousadia de Santos pode nos ensinar como ser historicamente crível e, ao mesmo tempo, ético.

Para aqueles que desejam saber mais sobre a história dos armênios e um dos filhos mais ilustres desse povo, é um livro indispensável. Os que têm interesse em romances com narrativas que fogem da obviedade das tramas amorosas de Nova York ou Paris, também acharão em “O Homem de Constantinopla” uma obra que cumpre as expectativas. Para os leitores que procuram histórias “baseadas em fatos reais” – sobretudo os que se interessam por narrativas ambientadas no Oriente Médio – não vão se decepcionar com a acurácia das informações investigadas por José Rodrigues dos Santos. Mas para os mais exigentes, que além de uma narrativa magnética procuram personagens complexos e diálogos que flertam com a historiografia sobre os armênios e o genocídio, certamente ficarão mais satisfeitos com Hilsenrath ou Werfel.

Faço votos para que o livro seja publicado por alguma editora brasileira muito em breve , em edição adaptada para o português brasileiro, de modo a fazer companhia nas estantes e bibliotecas a livros da mesma temática como “Os 40 Dias de Musa Dagh”, “De Volta a Istambul”, “Gendarme” e “O Grito do Cordeiro“.

Resta-me agora encarar as 700 páginas da segunda parte da história: “Um Milionário em Lisboa”.

Nota: 8.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Autor: José Rodrigues dos Santos
  • Edição (Portugal): Gradiva, 2013

A Chave

A Chave [Capa]

Depois de um pequeno (tá bom, tá bom… grande) atraso – culpa de um relatório de pesquisa que tive que fechar nessas últimas semanas – trago-lhes o prometido terceiro texto falando sobre uma obra de Tanizaki. O livro que escolhi para lhes apresentar dessa vez é o magnífico A chave.

A chave é uma obra curta (creio que “novela”, ao invés de “romance”, seja a classificação mais apropriada), daquelas para se ler numa sentada. O livro, de certa forma, mistura o gênero epistolar com o – tradicionalíssimo no Japão – gênero de diários. Mas como afinal é possível essa mistura? Explico… Toda a narrativa gira em torno de dois diários: um do marido e outra de sua esposa. Acontece que diários são, em essência, escritos pessoais, que não são feitos para serem compartilhados com outras pessoas. Eventualmente acho que até podemos imaginar situações que uma pessoa deixe outrem ler o próprio diário, mas o caso contado no livro, contudo, é distinto. Esposo e esposa escrevem cada qual seu diário com o intuito deliberado que o cônjuge leia. A despeito desse propósito, porém, ambos fingem que não querem ser lidos e, mais do que isso, dissimulam o fato de que sabem que a contraparte lê às escondidas o seu diário. Resumindo: o marido lê o diário da esposa, a esposa lê o do marido, mas todos disfarçam tal ocorrência. Desse modo, um escrito que tem em sua origem uma intenção privada, passa a ser usado para a comunicação entre o casal, se aproximando, então, de uma troca de cartas.

Mas por que raios eles optaram por esse meio excêntrico de comunicação? Simplesmente porque os assuntos abordados feririam a lógica social e, portanto, eram entendidos por ambos como tabus. Sabemos que ainda hoje o Japão é uma sociedade que reprime a sexualidade (não à toa as bizarrices que saem de lá), algo ainda mais intenso na década de 1950, data do livro. Como então falar abertamente de sexo, fetiches, adultério e coisas do tipo? O meio indireto e dissimulado escolhido para o diálogo, logo, se torna apropriado para explorar possibilidades até então socialmente negadas.

Só que o bacana da obra não morre aí. Como os diários são manifestações de discursos diretos, nós leitores somos jogados em meio a um jogo tácito de manipulação, no qual até o silêncio é repleto de significados e não podemos acreditar em quase nada. E quando digo quase nada, eu digo quase nada mesmo! Quanto mais lemos o livro, mas vamos percebendo que ninguém ali é confiável. E isso torna o livro magnífico, pois cada leitor terá elementos suficientes para interpretações bastante plausíveis dos fatos.

A chave é uma obra ousada, evolvente, bem escrita que, além de deleitar, apresenta um enredo simples, mas rico em nuanças. Leitura recomendadíssima!

Nota: 9.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 鍵 (Kagi)
  • Autor: Tanizaki Jun’ichirō (谷崎润一郎)
  • Tradutor: Jefferson José Teixeira (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Companhia das Letras, 2000

Há Quem Prefira Urtigas

Há Quem Prefira Urtigas [Capa]

Quando li um livro do Tanizaki Jun’ichirō pela primeira vez, tive um choque. Até aquele momento todas minhas experiências com romances japoneses me apresentavam um mundo e uma mentalidade, digamos, “fechada”. Eram sempre personagens que se comportavam de acordo com o que é esperado da “face exterior” de um japonês. É verdade que aqui ou ali até podíamos enxergar o lado de dentro desses personagens e é igualmente verdadeiro que muitas vezes o “desnudar” desse lado que o japonês tem de manter oculto da sociedade era justamente o objetivo dos escritores. Todavia, todos caminhavam em direção a esse objetivo de forma bastante sutil. Com Tanizaki, no entanto, foi diferente, pois ele optara por uma abordagem mais direta, forte e sem rodeios. Imaginem, em plena década de 1920, um escritor oriundo de uma sociedade na qual o sexismo imperava (por sinal, até hoje ainda é bem forte) escrever a respeito de uma relação extraconjugal entre duas mulheres! Conforme fui lendo outros livros do autor, percebi que aquele tipo de abordagem se repetia quase sempre. Desnecessário dizer que um escritor competente como Tanizaki não escolheria esse caminho apenas para chocar. Há objetivos por trás dessa opção, mas não entrarei no mérito da questão, até porque hoje quero falar de uma de suas obras mais leves, quiçá a menos chocante delas.

Há Que Prefira Urtigas é a história de um casamento que, depois de alguns anos, só existe formalmente. Kaname e Misako já não têm atração um pelo outro e, portanto, um relacionamento real entre os dois já não é mais possível. A despeito de o casal ter percebido isso e até já terem se decidido pelo divórcio, nenhum dos dois toma o passo decisivo para o rompimento. Muitas coisas entram na conta: como o filho de dez anos lidaria com a separação, a posição dos dois perante a sociedade, as opiniões do sogro de Kaname, etc. A separação, todavia, é inevitável. Misako, por exemplo, já se relaciona com outro homem, caso não só sabido como apoiado por Kaname. Diferentemente de várias outras histórias do Tanizaki, essa é narrada em terceira pessoa e tudo leva a crer que não há espaços para manipulações na narração. Todos os personagens parecem ser expostos de maneira bastante honesta… Embora em terceira pessoa, contudo, a focalização frequentemente está em Kaname, personagem que funciona como um fio-condutor da obra. Bem, talvez não tanto condutor, pois ele é hesitante, indeciso, difuso, covarde até, eu diria. Não é tão difícil se irritar com ele vez ou outra. Isso, entretanto, não é um ponto negativo, pois faz sentido para o enredo esse perfil psicológico do protagonista.

Não é raro encontrarmos elementos que levantam dicotomias (muitas vezes suscitadas pelas personagens femininas da obra, embora não só por elas): Ocidente x Oriente, tradicional x moderno, velho x novo… Não me parece, porém, que Tanizaki pretendesse “escolher” um desses lados, como alguns críticos costumam sugerir. Para mim, o autor localiza a obra numa zona cinzenta intermediária entre os dois polos, tendo em Kaname o grande expoente desse aspecto de indefinição, talvez até uma metáfora do próprio Japão daqueles anos (década de 1920). Julgo Há Que Prefira Urtigas obra fundamental para todos que querem compreender um pouco mais do Japão.

Nota: 8.5 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 蓼喰ふ蟲 [蓼食う虫] (Tade kū mushi)
  • Autor: Tanizaki Jun’ichirō (谷崎润一郎)
  • Tradutora: Leiko Gotoda (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Companhia das Letras, 2003

Em Louvor da Sombra

Em Louvor da Sombra [Capa]

Promessa feita, promessa cumprida! Depois de o Japão aparecer pela primeira vez aqui no blog no meu último texto, ele volta agora numa “trilogia”. Entre aspas, pois, na realidade, os três livros que aparecerão em sequência por aqui, embora do mesmo autor – o genial Tanizaki Jun’ichirō –, não têm entre si conexão lógica, ainda que, claro, possam dialogar aqui ou ali… No caso específico da obra que lhes trago hoje, sendo franco, talvez fosse até mais correto dizer que todos os outros livros do autor estabeleçam um diálogo considerável com este daqui.

Em Louvor da Sombra não é um romance, nem uma novela, muito menos um conto. Tampouco um livro de poesias. É um ensaio… Sim! Um ensaio! Isso por si só já basta para criar a atmosfera de uma obra imponente e somando-se ao fato de que ela versa a respeito da cultura japonesa (assunto inegavelmente bastante complexo), temos pronta a imagem de um livro extenso, intricado e complicadíssimo, certo? Errado! Em Louvor da Sombra é uma obra de apenas sessenta e poucas páginas, escrita numa linguagem notadamente simples e num tom tão leve que faz até parecer que o autor está numa conversa descompromissada com seus leitores. Para terem a ideia do que digo, há dado trecho do livro que o autor descreve com detalhes a receita de um prato da culinária japonesa que ele julga ser um daqueles autênticos representantes da alma japonesa. A despeito dessa forma amena de o autor abordar o assunto, entretanto, o conteúdo é de grande qualidade.

É evidente que um livro com essas características não pode nunca almejar ser compêndio de coisa alguma, ainda mais quando se trata de um assunto espinhoso. Em Louvor da Sombra, no entanto, entrega o que propõe, isto é, uma visão estética da cultura nipônica vista pelo olhar agudo de Tanizaki, mas que em momento algum pretende ser mais do que isso: a apreensão do autor a respeito de seu objeto. Só que, embora seja apenas a visão particular de um homem, a perspicácia de Tanizaki para perceber detalhes, que de tão óbvios são dificílimos de intuir, é digna de nota, como também é admirável a capacidade de sintetizar tudo isso num título. Nesse caso em específico sem precisar me importar com o pudor de não revelar detalhes da obra, pois de um ensaio não se espera as surpresas de um roteiro de romance, posso dizer que a grande sacada de Tanizaki foi justamente notar que o traço que difere os japoneses é o apego pelas sombras. Isso os contraporia aos ocidentais que, segundo o autor, buscam em todos os aspectos de suas vidas a luminosidade. O “louvor” às sombras, portanto, legariam aos japoneses uma visão peculiar das coisas e, em última instância, uma maneira distinta de encarar a vida. Para Tanizaki essa diferença de olhares se manifestaria desde a forma dos banheiros, passando pela arquitetura e chegando até mesmo à cor da pele. Em suma, se para os ocidentais a falta de luz oprimiria, para os japoneses estesiaria.

O ensaio de Tanizaki é curto é fácil de ler, por um lado, mas propõe uma estética muito bem pensada, por outro. Isso por si só já bastaria para endossar a leitura do livro, porém, se adicionarmos a perspectiva que o jogo de luz e sombra leva até às outras obras de Tanizaki – especialmente talvez na construção de seus personagens –, faz com que a leitura de Em Louvor da Sombra seja quase obrigatória para qualquer um interessado na literatura japonesa.

Nota: 9.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 陰翳礼讃 (In’ei raisan)
  • Autor: Tanizaki Jun’ichirō (谷崎润一郎)
  • Tradutora: Leiko Gotoda (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Companhia das Letras, 2007

O País das Neves

O País das Neves [Capa]

Rufem os tambores. Ascendam os fogos de artifício. Preparem um banquete… Finalmente, depois de longa data, enfim o Japão aparece nesse espaço! Devo admitir certa surpresa – e quem me conhece provavelmente compartilhará meu espanto – por esse fato. E o motivo é um tanto simples: embora eu admire o Oriente como um todo, o Japão é, inegavelmente, o país pelo qual eu projete minhas atenções com mais ardor. Frente a isso hão de concordar que é um tanto estranho essa demora que, reconheço, não sei dizer o motivo. Em compensação, se meus planos forem seguidos à risca, essa longa espera será mais que compensada nas próximas semanas… Sem mais delongas, vamos ao tópico de hoje!

Sou grande fã da literatura japonesa e adoro um punhado de autores do país do sol nascente. O que inaugurará o Japão aqui no blog, no entanto, não foi escolhido simplesmente por eu apreciar sua obra – embora de fato eu seja grande fã. O motivo da escolha é um tanto mais pragmático e se baseia exclusivamente no fato de que ele obtivera amplo reconhecimento internacional e, consequentemente, tenha sido o primeiro escritor japonês laureado com o Prêmio Nobel de Literatura (em 1968): apresento-lhes Kawabata Yasunari!

Kawabata é um daqueles autores que sabem colocar as palavras com tamanha maestria que a simples encadeação delas é capaz de levar o leitor ao gozo profundo. Dono de uma escrita “lírica” que foi considerada pela Academia Sueca de “grande sensibilidade” e a expressão “[d]a essência da mente japonesa”, tenho a impressão que Kawabata consegue provocar com a prosa o mesmo enlevo da poesia. Nesse aspecto, é quase ponto pacífico que O País das Neves seja sua obra-prima.

A obra é uma novela originalmente serializada entre os anos de 1935 e 1937 e que chegou ao Ocidente pelas mãos do estudioso da literatura japonesa, Edward Seidensticker, em sua tradução para a língua inglesa em meados da década de 1950. Lembro-me de uma vez, numa discussão em aula, um colega chegou a dizer que na primeira vez que tinha lido O País das Neves, ao chegar ao fim do livro, não conseguiu captar exatamente qual era seu enredo. Por mais absurdo que posso parecer esta assertiva, a impressão de meu colega não me parece estar de todo equivocada. Não que o livro não tenha enredo. É claro que tem! Mas, especialmente para nós Ocidentais, acostumados com um tipo de trama, O País das Neves pode causar certo estranhamento numa primeira leitura. Mais do que uma história que evolui paulatinamente até o ápice e seu desenlace, O País das Neves é um livro calcado em sensações, cores, sons, cheiros… uma experiência inteiramente sinestésica! Não foram poucas vezes que, em meio a uma cena aparentemente banal, me vi pululado por uma profusão de sensações indescritíveis! Arrisco-me a dizer que O País das Neves é um livro que mais apreendemos do que entendemos. Apesar disso – ou mais apropriado dizer, justamente por isso –, a leitura não é exatamente fácil. Ser capaz de captar todas as camadas de sentidos proposta por Kawabata é tarefa para um leitor maduro. A despeito disso, acho a leitura agradabilíssima e estou certo que O País das Neves é um daqueles livros que precisamos voltar a eles algumas vezes durante nossas vidas e nos deliciarmos com toda uma miríade de novas experiências.

Nota: 9.5 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 雪国 (Yukiguni)
  • Autor: Kawabata Yasunari (川端康成)
  • Tradutora: Neide Hissae Nagae (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Estação Liberdade, 2004

Os Poemas Suspensos [Al-Muʿallaqāt]

Os Poemas Suspensos

Passei anos da minha vida detestando poesias. Lembro-me, por exemplo, como era um suplício as partes que continham cantos n’O Senhor dos Anéis quando li a trilogia no início da minha adolescência. Encarar Gregório de Matos, Gonçalves Dias, Manoel Bandeira, entre outros, nas aulas de literatura do colégio, então, nem se fala… Minha opinião a respeito só começou a se alterar muitos anos mais tarde, após ter tido a possibilidade de acompanhar uma disciplina ministrada por um professor que, além de muitíssimo competente, claramente amava o que fazia. Depois dessa experiência, além de mais maduro e ciente das “ferramentas” necessárias para se fruir a arte poética, passei a compreender melhor o que de fato seria a poesia e, assim, pude, pela primeira vez na minha vida, começar a “entendê-la” em sua essência. Voltei a alguns daqueles autores que me atormentavam e, hoje, sou apreciador de vário deles. Mas o tema do blog é o Oriente, logo não é nenhuma surpresa que seja de lá o texto que trago para esse espaço hoje.

Os Poemas Suspensos (ou Al-Muʿallaqāt no original em árabe) é um conjunto de dez poemas longos, oriundos da Arábia pré-islâmica. Pretensamente a obra-prima dos dez maiores poetas do mundo árabe antigo. A bem da verdade, esse número “dez” é um tanto controverso, pois há quem defenda números um pouco distintos (por exemplo, há compiladores que sugerem sete poemas e, consequentemente, sete poetas). E, sejamos francos, os próprios poemas estão envoltos numa atmosfera um tanto polêmica, visto que chegaram até nós a partir do trabalho executado por compiladores muçulmanos que podem muito bem terem feito uma seleção enviesada ou, pior ainda, falsificado lá ou cá os poemas, no afã de estabelecerem uma oposição entre as “trevas” de mundo pré-islâmico e a “luz” trazida pela nova religião. Polêmicas à parte, vamos nos afundar um pouco mais no texto.

Comecemos pela tradução. Qualquer um que já se aventurou no exercício de traduzir alguma coisa sabe que a tarefa é ingrata. Imagine, então, traduzir um texto antigo de uma cultura consideravelmente diferente da nossa… Esse desafio foi autoimposto pelo escritor carioca Alberto Mussa (autor de, por exemplo, O enigma de Qaf, romance do qual pretendo compartilhar minhas impressões aqui no blog assim que possível). Conta o tradutor que ficou apaixonado pelos poemas “suspensos” no exato momento que pôs os olhos em alguns de seus fragmentos, contidos numa antologia francesa de poesia árabe. A partir daquele momento resolveu traduzi-los para o português. Acontece que Mussa não conhecia árabe, mas sabia que muito se perderia se traduzisse de uma versão do francês ou do inglês. Logo, resolveu aprender o idioma, empresa que lhe ocupou quatro anos. Ainda assim, Mussa confessa que não sabe falar o árabe e ainda tem dificuldades em compreender por completo as frases presentes nos poemas. A tradução, portanto, é excessivamente presa ao sentido, o que tira, é verdade, um pouco do brilho dos poemas. Mas devemos reconhecer que o esforço de Mussa foi considerável e o resultado foi o melhor que ele pôde atingir. Embora seja visível que o tradutor tenha se apoiado no campo sintático-semântico, o texto não é ruim e as ótimas notas inseridas por Mussa nos ajuda a compreender os poemas e as circunstâncias de suas produções.

E isso nos leva aos poemas propriamente ditos… Eles fazem parte de um gênero peculiar aos árabes, denominada qaṣīda. Essa forma poética consiste em um sucessão constante de versos divididos por dois hemistíquios, com métrica e rima fixas. Além disso, a qaṣīda é composta por uma justaposição de temas e unidades separadas. Significa dizer que num mesmo poema há uma transição entre assuntos distintos. No que tange aos Poemas Suspensos, estudiosos identificam, de forma geral, três unidades nas peças (nesta ordem): (1) um lamento erótico/amoroso do poeta quando se depara com os restos do acampamento abandonado pela tribo da mulher amada; (2) uma viagem pelo deserto e a descrição da montaria (cavalo ou camela); e, por fim, (3) a mensagem principal do poema (invectiva, sátira, elogio), direcionada a um destinatário específico. Embora essa seja uma estrutura geral presente na maioria dos poemas, alguns não respeitam exatamente tais unidades temáticas. Todavia, mesmo nos poemas que seguem fielmente esse esqueleto de composição, a forma do poeta abortar cada um desses tópicos é bastante original.

Confesso que gostei mais de um do que de outros e achei particularmente interessante um dos poemas no qual o autor traçava, dado momento, noções vinculadas à efemeridade da vida (num ponto de vista um tanto diferente daquele que estou acostumada a ver no Budismo). O mais legal de tudo, porém, é que os textos são quase como uma viagem à Arábia antiga, e deixam marcado um frescor poético um tanto rude e por vezes brutal (como diz Mussa), mas inegavelmente sensível e verdadeiro. Uma leitura recomendadíssima!

Nota: 8.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: المعلقات (Al-Muʿallaqāt)
  • Autor: Diversos
  • Tradutor: Alberto Mussa
  • Edição brasileira: Record, 2006

As Montanhas de Buda

As Montanhas de Buda

Confesso que estava bastante hesitante em começar a ler esse livro. As credenciais da obra não me agradavam muito: um livro que abordava o Budismo (um assunto complexo que muito me interessa, mas que é frequentemente diminuído, quando não tratado de forma completamente errônea aqui no Ocidente), escrito por um espanhol, Javier Moro, autor de best-sellers (fato que adiciona ainda mais incógnitas ao já suspeito conteúdo da obra). Não nego que essa seja uma abordagem um tanto preconceituosa, visto que eu não tinha elementos concretos para fazer uma avaliação honesta, mas creio que concordarão que meu estado reticente não era inteiramente desprovido de razão.

Quando finalmente encarei o texto, entretanto, tive uma surpresa positiva. Primeiro por ter achado que o livro seria romance. Não é! Não totalmente, ao menos. É verdade que a narrativa é romanceada, mas o enredo é não ficcional, chegando a flertar com o documentário, algo que condiz com a formação jornalística de Moro. Junta-se a isso o fato de os acontecimentos narrados se passarem no Tibete –  local cujo nosso conhecimento a respeito costuma ser inversamente proporcional ao quão instigante ele é –, temos motivos de sobra para querer ler o livro até o fim.

Não são somente esses, porém, os atrativos do livro. A história é por vezes intensa, quase sufocante, mas é construída de modo que nos faz sentir a necessidade de continuar acompanhando os penosos passos de Kinsom, a monja budista cuja história serve de fio-condutor para o enredo. As frequentes digressões, intercaladas na narrativa principal, explicam um pouco mais sobre o Tibete e são em si bastante sedutoras, bem como estratagemas úteis para nos mostrar como o “Teto do Mundo” chegou à situação vista pelos olhos de Kinsom.

A despeito de ser um livro que num primeiro momento aparenta tratar de aspectos religiosos, As Montanhas de Buda se aproxima mais de um enfoque político – ainda que, nesse caso, seja impossível não lidar com a religião. E é justamente nessa perspectiva política que talvez resida a principal falha da obra. Moro toma uma posição a respeito da conflituosa relação entre China e Tibete, mas faz de uma maneira quase ingênua, construindo o embate com feições maniqueístas: os perversos chineses contra os puros e sem vícios tibetanos. Sabemos que a História nunca é assim. Então, por exemplo, as ações da CIA, certamente motivadas por interesses, são descritas no texto como se fossem atos quase altruísticos. Isso não invalida – claro! – as críticas e denúncias feitas, que tornam latente a importância de uma política que aproxime os povos e leve um tratamento justo e harmonioso ao Tibete.

As Montanhas de Buda é um valioso documento – apesar de precisar ser lido com certo cuidado – para aqueles que, como eu, querem entender um pouco mais dessa praticamente desconhecida região. Ora duro e pesado, ora sensível e delicado, é uma leitura necessária.

Nota: 7.5 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: Las Montañas de Buda
  • Autor: Javier Moro
  • Edição brasileira: Planeta, 2010