O Ato de Matar [2012]

The Act of Killing

Devastador. Esse é o melhor adjetivo para definir “The Act of Killing“, documentário do cineasta norte-americano, radicado na Dinamarca, Joshua Oppenheimer, indicado ao Oscar de melhor documentário em 2013.

O filme nos leva à distante Indonésia, arquipélago pouco conhecido da maioria de nós (ou ao menos daqueles que não se ligam nos programas de viagens e esportes radicais da TV fechada), mas que é um dos países mais populosos do mundo e o maior país islâmico da Terra. A localização geográfica privilegiada fez com que as potências mundiais a partir do século XVI disputassem o controle das suas mais de 14 mil ilhas, até que, findada a II Guerra Mundial, liderados por Sukarno, os indonésios conseguem a sua independência, repelindo o domínio japonês e a antiquíssima exploração holandesa.

Com a independência, alguns partidos políticos pipocaram na cena política da Indonésia, dentre eles o Partido Comunista Indonésio (PKI, na sigla no idioma local), que em pouco tempo se tornou o maior partido comunista fora do chamado “socialismo real” (MARGOLIN, 1997, p. 271). A crescente influência dos comunistas que pleiteavam os cargos mais altos do governo Sukarno preocupava outras forças políticas do país, que aproveitaram um obscuro golpe militar em 30 de setembro de 1965 para culpar os comunistas por tentarem desestabilizar o país. Desse golpe, emergiu a figura do general Suharto (não confundir com Sukarno), que gradualmente foi ganhando mais poder até depor seu antecessor, proibir o PKI e governar a Indonésia de maneira autoritária (CHALK & JONASSOHN, 2010, p. 487).

Suharto e sua cúpula aproveitaram a instabilidade política para declarar que os comunistas eram os culpados pela crise que o país enfrentava. Em plena Guerra Fria, esse discurso, associado à imagem dos comunistas como ateus famigerados em um país predominantemente islâmico, foi o catalisador de um processo genocidário de maior amplitude do século XX. Em poucos meses – ou semanas – estimam-se que cerca de meio milhão de pessoas morreram, sem contar outras 500 mil que foram presas. Os números são de difícil verificação, pois as estimativas oficiais são provavelmente subestimadas – algo em torno de 80 mil – enquanto as cifras fornecidas pelos próprios perpetradores são inflacionadas a fim de provocar júbilo de seus “elevados feitos” a serviço da nação ao exterminar comunistas (MARGOLIN, 1997, p. 281).

É justamente a permanência do sentimento do perpetrador de que nada de errado aconteceu durante os anos 1960 na Indonésia que Joshua Oppenheimer retrata nesse documentário – que pode ser visto tanto na versão “cortada”, com 1:56h, ou na versão do diretor, que eu vivamente recomendo, com 2:39h – que é difícil de assistir numa sentada só, tamanha a dureza da realidade retratada.

Trailer

A ideia surgiu após Oppenheimer realizar um projeto com uma comunidade agrícola de uma das muitas ilhas do país. Lá, o diretor teve contato com uma tensão presente entre os habitantes e trabalhadores e forças paramilitares, avalizadas pelo Estado, que controlam determinadas cidades e regiões, frutos do golpe de Estado. Alguns anos mais tarde, Oppenheimer decidiu voltar ao país para fazer um documentário sobre esses “donos do poder” e como eles lidam com o passado de massacres e repressão que eles mesmos instauraram, administraram e ainda perpetuam na Indonésia contemporânea.

Logo no início do filme somos apresentados a Anwar Congo, um simpático e vaidoso idoso que demonstra para a câmera de Oppenheimer como ele matou mais de mil “comunistas” nos anos 1960 com a ajuda de um arame, método inspirado nos filmes de gângsteres norte-americanos – que, ao lado das películas de faroeste, são as preferidas de Congo e sua gangue – o que proporcionaria uma morte mais rápida e limpa, evitando o sangue causado por lâminas e balas.

A estratégia do diretor para fazer com que os perpetradores falassem orgulhosamente sobre os seus atos do passado foi oferecê-los para que eles mesmos dirigissem, produzissem e atuassem num filme sobre a política genocida nos anos 1960. Ao lado de Anwar Congo, protagonista desse filme-álibi, está Herman, um membro da Juventude Pancasila – temido grupo paramilitar da região – e Adi, que proporciona um dos momentos mais impactantes do filme, ao dizer que tem plena consciência de que as mortes que causou nos anos 1960 foram frutos de propagandas mentirosas do governo contra comunistas, chineses e outros dissidentes e que a ele pouco importava as convenções internacionais que previam punição para seus crimes, pois, como “vencedor”, caberia a ele escrever as regras.

Outro momento que faz com que o espectador pense duas vezes em continuar a assistir o filme ou não é quando Anwar Congo e seus amigos são entrevistados num popular programa vespertino da TV local, onde são tratados como heróis e aplaudidos a cada vez que repetem como matavam os comunistas há alguns anos atrás. Isso mostra a não ruptura com o regime autoritário e genocida da Indonésia dos anos 1960 e seus sucessores continuam a ditar as regras no arquipélago asiático e por isso seus apoiadores não têm medo ao relatar seus feitos para as câmeras de um norte-americano, país este que eles veem como apoiadores dos massacres de 1965.

Em momentos como hoje, quando acadêmicos e observadores de direitos humanos discutem a estabilidade de países do sudeste asiático como Mianmar – ou Burma – e aqui mesmo no Brasil nós vemos – meio céticos, meio esperançosos – as atuações da Comissão Nacional da Verdade em relação aos crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura militar inaugurada em 1964, The Act of Killing é um golpe nos que acreditam que a História é irreversível, presa no tempo passado e que a melhor solução para os traumas é o tempo. Ingenuidade criminosa. O filme de Oppenheimer nos alerta, ao colocar uma lente de aumento sobre os perpetradores de um genocídio, para a importância de uma transição verdadeiramente democrática e comprometida em olhar para o passado disposto a devassá-lo, não a pretensas conciliações nacionais que escondem esqueletos nos armários e fadam as vítimas de regimes autoritários a viverem com medo e impotentes. Em tempo, Oppenheimer lançou recentemente em festivais europeus o irmão gêmeo de The Act of Killing. Intitulado The Look of Silence, a película dessa vez volta-se para os sobreviventes e suas famílias e cruza suas histórias e dores com os depoimentos dos perpetradores.

Mais do que um documentário doloroso sobre mortes em países exóticos e distantes por motivos pouco claros, The Act of Killing é uma contribuição valiosa ao campo dos Genocide Studies, ao propor analisar os perpetradores ao invés do grupo-alvo, dando a eles espaço para falarem de seus atos enquanto andam pelas ruas e avenidas de suas cidades, inocentes, livres e destemidos. É uma obra fílmica, mas se fosse uma tese de doutorado defendida em qualquer uma das grandes universidades do mundo, seria uma daquelas que marcaria a sua geração.

Para saber mais:

  1. CHALK, Frank & JONASSOHN, Kurt. Historia y sociología del genocidio: análisis y estudio de casos. Buenos Aires: Eduntref/Prometeo libros, 2010.
  2. MARGOLIN, Jean-Louis. Massacres asiáticos In: RICHARD, Guy (org.) A História Inumana: massacres e genocídios das origens aos nossos dias. Lisboa: Instituto Piaget, 1997.

Nota: 10 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: The Act of Killing
  • Ano de lançamento: 2012
  • Diretor: Joshua Oppenheimer, Christine Cynn (codiretor)

Meu amigo Totoro (1988)

Tonari no Totoro

Não deve ser surpresa para ninguém que a animação – e sua mídia irmã, os quadrinhos – é uma paixão dos japoneses e, também, uma arte que os nipônicos, desde idos dos anos 1960, têm desenvolvido e inovado reiteradas vezes (tanto no que tange aos aspectos técnicos, como no que concerne à linguagem em si). Se perguntarmos para um japonês quem ele considera o pai dos anime¹ (como os japoneses se referem à “animação”), muito possivelmente teremos como resposta Tezuka Osamu. Mas se a pergunta for “qual seu diretor do coração”, suspeito que obteríamos com certa frequência o nome de Miyazaki Hayao (Tezuka merece alguns textos e certamente aparecerá aqui futuramente).

Miyazaki, junto de Takahata Isao e Suzuki Yoshio, é um dos fundadores do Studio Ghibli, uma das principais empresas de animação do Japão. Inaugurada em 1985, a companhia é tão bem sucedida que entre as quinze animações japonesas de maior bilheteria, 8 foram feitas pelo Ghibli. O nome do estúdio é curioso: Ghibli é uma palavra árabe que nomeia um vento quente que sopra do Saara em direção ao Mediterrâneo (por aqui chamamos esse vento de Siroco). Durante a Segunda Guerra Mundial, entretanto, essa palavra foi usada no nome de um avião de reconhecimento italiano: o Caproni Ca.309 Ghibli. Miyazaki, um entusiasta de aeronaves, escolheu essa palavra para nomear a companhia que estava criando, pois queria que a mesma representasse um sopro “quente” na indústria da animação do Japão.

Tonari no Totoro (“Meu amigo Totoro” na tradução brasileira) não é o primeiro filme do estúdio, tampouco o mais famoso internacionalmente. A despeito disso, a animação foi, desde pouco depois de seu lançamento em 1988, um enorme sucesso no Japão, marcando de forma indelével a história da companhia. A identificação de Totoro com o Ghibli é tão grande que a criatura grandalhona até passou a fazer parte da logomarca da empresa (na verdade, aparecem três “Totoro” no filme; sendo que dois deles estão na logomarca; o grandão e o pequeno).

Logo Studio Ghibli

Logomarca do estúdio

Escrito e dirigido por Miyazaki, Meu amigo Totoro já apresenta todo o esplendor fantástico, misturado com a representação aguçada da infância, aspectos sempre muito bem trabalhados pelo diretor. O enredo acompanha pai e filhas da família Kusakabe que se mudam para um subúrbio rural de Tóquio, ficando, assim, mais próximos da mãe que está internada em um hospital, se recuperando de uma doença (tuberculose, embora só implícito). Logo de cara, as duas pequenas, ao ingressarem pela primeira vez na nova casa, passam por um túnel de árvores e, a partir daí, entram em contato com o fantástico, como se a entrada da nova residência fosse uma espécie de símbolo da passagem entre o profano e o sagrado. Essa estratégia é repetida no filme, com a imagem da passagem pelo “túnel” funcionando como um intermediador entre as duas esferas (a bem da verdade, Miyazaki parece gostar dessa imagem, visto que ela é reiterada em outras de suas obras).

Aqui vale uma observação: não seria um pouco exagero conectar “fantástico” e “sagrado”? Não digo que para todas as ocorrências será esta resposta, mas no caso do Japão e especificamente em relação ao Meu amigo Totoro, creio que a conexão entre os dois seja bastante plausível. Sem alongar muito, explico: o povo japonês ainda hoje tem fortes ligações com o mundo natural e isso influencia na forma como eles percebem o sagrado. Mesmo após a entrada do Budismo no arquipélago, essa forma de se apreender o sobrenatural (que começou a ser sistematizada no século VI com o nome de xintoísmo [shintō, 神道]) permaneceu presente como uma das camadas de “compreensão” religiosa dos japoneses. Ora, a partir disso representar o sagrado como figuras fantásticas oriundas da natureza não é nada absurdo.

Trailer

Digressões à parte, a nova residência da família Kusakabe parece estar pululada de criaturas fantásticas, algo que atrai consideravelmente as duas irmãs: Satsuki e Mei. A propósito, é realmente incrível como Miyazaki sabe retratar bem crianças: o comportamento das duas é muito convincente como, por exemplo, quando a pequena Mei imita tudo que a irmã mais velha faz. Das criaturas fantásticas, decerto as mais interessantes são os “Totoro”. Encontrados pela Mei, quando a menina explorava o jardim da casa, os “Totoro” funcionam como os kami (神) do xintoísmo (espécie de espíritos da natureza… lembram-se do que eu falei da interpolação entre “mundo natural” e “sagrado”?) e vivem numa enorme árvore ali por perto. A árvore, todavia, não é qualquer: ela é um yorishiro, um objeto transformado através de rituais numa morada de um kami, o que reforça a minha leitura da conexão entre “fantástico” e “sagrado” na obra (sabemos que a árvore é um yorishiro por causa da corda amarrada em volta dela). A partir disso, o filme vai se desenrolar explorando a relação entre as duas meninas e os “Totoro” (em especial o grandalhão) e, concomitantemente, o desenvolvimento da doença da mãe.

Embora seja feita para um público infantil, Meu amigo Totoro é uma animação extremamente bem produzida e dirigida, capaz agradar também um público adulto, especialmente por sua atmosfera, nas palavras de Miyazaki, “serena, tranquila e inocente”. Destaca-se sobremaneira o universo fantástico da obra – uma mistura bem dosada das tradições japonesas com criações da mente inventiva de Miyazaki – que pode seduzir qualquer um que queira decifrar um pouco das inspirações do autor. Se uma criança vai se encantar com a arte e com a história, um adulto pode muito bem se instigar com aquilo que fica implícito: o túnel como passagem entre “mundos”; o fantástico que só é visível para as crianças; o explorar do universo sagrado… Enfim, uma excelente pedida para todos!

Nota: 9.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: となりのトトロ (Tonari no Totoro)
  • Ano de lançamento: 1988
  • Diretor: Miyazaki Hayao

Notas:

  1. Abreviação da palavra アニメーション (animēshon), oriunda do inglês “animation”. Vale lembrar que na língua japonesa, ao contrário do que ocorre em determinadas variantes do português brasileiro, palavras terminadas em “e” ou “o” cujas sílabas finais não são tônicas, não sofrem uma alteração vocálica na fala para, respectivamente, “i” e “u”. Isto é, embora “carro” seja escrito com “o”, é comumente pronunciado como “carru” aqui no Brasil. Tal fenômeno não ocorre no japonês e, portanto, a pronúncia mais próxima da palavra アニメ (anime), seria “animê” (e não “animi”). Voltar

Oldboy – Dias de Vingança (remake) [2013]

Capa - Oldboy [2013]

Não é surpresa para ninguém que Hollywood adora fazer versões de filmes internacionais de sucesso, seja de crítica ou de público. Também não é novidade que muitas dessas versões são bastante aquém das originais (para não dizer a imensa maioria). Uma, no entanto, me despertou o interesse desde seu anúncio e por dois motivos muito simples: seria uma refilmagem do excelente Oldboy (veja meu texto sobre ele aqui) e seria dirigida por Spike Lee, um diretor talentoso, um tanto polêmico e bastante engajado em causas políticas, especialmente àquelas vinculadas ao movimento negro. Parecia-me, portanto, que tê-lo no comando poderia adicionar ao filme elementos novos e estimulantes e, desse modo, tornar a obra hollywoodiana não uma mera repetição de sua contraparte oriental, mas um filme que pudesse “andar com suas próprias pernas”.

Trailer

Após alguns meses de seu lançamento e da frustração de não conseguir ir ao cinema, enfim consegui assisti-lo… E o filme começa bem, com um Josh Brolin muito competente em caracterizar um personagem inescrupuloso. Só que, conforme o filme ia avançando, para a minha apreensão, nada de novo surgia. Onde estariam os toques revigorantes que eu esperava de Lee? Não existem! Não existem em absoluto! Talvez uma violência gráfica um pouco maior, mas morre por aí… E pior que isso, o remake não só não trás nada de novo, como consegue adicionar cá ou lá algum problema inexistente na obra original. Ora, o mínimo que se espera de uma obra adaptada é que tenha um roteiro redondo, afinal parte de toda uma gama de experiências, erros e acertos da versão original e, portanto, navega por mares já navegados. Falhas nessas circunstâncias são muito mais graves e o filme de Lee tem algumas delas. A principal, a meu ver, é o final. Spike Lee optou por alterar o desenlace original. Não acho isso necessariamente ruim, desde que se tivesse trocado por um final tão impactante quanto o da obra de origem. Mas não foi o que aconteceu… Pelo contrário, o desfecho é bem sem sal.

Enfim, eu até me diverti assistindo ao filme, mas não fiquei aturdido como quando vi o filme coreano. Fosse uma obra original, o filme de Lee poderia ter sido melhor recebido, mas sendo uma refilmagem e apresentando falhas inexistentes no longa que serviu como base, é inevitável avaliá-lo de forma muito mais rigorosa. E, nesse caso, o que sobra é isso mesmo: um filme apenas “ok”.

Nota: 6.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: Oldboy
  • Ano de lançamento: 2013
  • Diretor: Spike Lee
  • Elenco: Josh Brolin, Elizabeth Olsen, Sharlto Copley, Samuel L. Jackson, Michael Imperioli

Oldboy [2003]

Oldboy [2003]

Seu dia começou mal. É aniversário de quatro anos da sua filha, mas você está retido numa delegacia de polícia, completamente embriagado. Por fim, depois da ajuda de um amigo, consegue ser liberado para enfim poder voltar para casa e rever esposa e filha. Porém algo acontece e você acorda num quarto estranho, hermeticamente fechado, sendo que seu único contato com o mundo externo é um televisor. Você não faz ideia de como chegou ali, nem do porquê de ter sido trancafiado naquele lugar, de quem o capturou, muito menos de quando sairá. Sua vida é decidida nas minúcias por outrem: escolhem quando você vai dormir, o que vai comer, quando irá cortar o cabelo… tudo. Você é constantemente dopado, vive tendo alucinações e não tem nem mesmo o direito a se matar, por QUINZE ANOS! Esse é o pano de fundo Oldboy, filme coreano dirigido por Park Chan-wook. Vencedor do Grand Prix e indicado à Palma de Ouro do aclamado Festival de Filmes de Cannes em 2004 e premiado em diversos outros cantos do mundo, Oldboy é o segundo filme da “Trilogia da Vingança”, – filmes dirigidos por Park que, a despeito de não terem relação direta um com o outro, têm como mote a “vingança”.

Trailer

A trama de Oldboy, uma mistura de drama, thriller psicológico e criminal, é baseada numa série de mangás homônima, criada por Nobuaki Minegishi e Garon Tsuchiya (aos interessados, a obra está sendo lançado pela editora Nova Sampa), embora, claro, adaptações sejam necessárias para encaixá-la numa nova mídia. Para além das adaptações, todavia, o enredo funciona muito bem nas telonas. Desde o início do filme somos fisgados pelo fluxo de acontecimentos e ficamos ávidos para entender o que está acontecendo com Oh Dae-su, o pobre coitado do protagonista. E quanto mais tudo vai se esclarecendo, mais perplexos vamos ficando, até o desfecho – ah! o desfecho – que é surpreendente!

Se o argumento é sólido, contudo, o filme não se limite a ele. A direção de Park é bastante eficiente e a atuação de Choi Min-sik (que interpreta Oh Dae-su) convence, principalmente nas cenas em que ele está na clausura, momentos nos quais podemos sentir as perturbações psicológicas do personagem tanto pela caracterização incrível como pelas feições de Min-sik. Após a misteriosa libertação de Oh Dae-su, Oldboy muda de fase: sai a sensação de sufocamento e entra sentimentos de curiosidade e desforra. E aí Park fez as escolhas corretas. Primeiro soube dosar bem a velocidade com a qual as peças do quebra-cabeça vão sendo reveladas. Depois, não quis mostrar ao espectador cada pequeno avanço na trama, deixando a nosso cargo entender o que está se passando. Não digo que em algum momento as transições sejam obscuras… apenas sutis, evitando aquele sensação pasteurizada. Por fim, Park acertou em cheio no uso da trilha sonora, que muitas vezes parece estar em certa dissonância com a imagem, fato, todavia, que não cria estranhamento. Ao contrário, acaba gerando uma atmosfera apropriada para o desenvolvimento do filme.

Oldboy é um filme por vezes chocante, por outras opressor, mas de inegável senso artístico e capaz de nos prender do início ao fim. Um dos grandes filmes coreanos, sem dúvida.

Nota: 8.5 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 올드보이 (Oldeuboi)
  • Ano de lançamento: 2003
  • Diretor: Park Chan-wook
  • Elenco: Choi Min-sik, Yoo Ji-tae, Kang Hye-jung

Espíritos – A Morte está ao Seu Lado [2004]

Shutter poster

Vou ignorar que se passou mais de um ano do meu último post e fingir que só demorei pouco mais de uma semana, ok? Vejam, faz sentido: meu último texto foi dia 08 de fevereiro… O ano é só um detalhe, vai. Agora que todos estão de acordo com isso (todos estão, não é verdade?), vamos ao que interessa.

Nunca fui muito ligado a histórias de terror. Passei boa parte da minha vida não tendo contato algum com elas, incluindo aí livros e filmes. Por algum motivo que não sei precisar, todavia, senti há um tempinho uma inexplicável atração pelo gênero e comecei a consumir obras desse filão com bastante afã. Evidente que os anos de completo descaso me fizeram um perfeito ignorante para com o horror, e mesmo uma exposição intensiva não me dão bases críticas minimamente adequadas para avaliar com rigor uma obra desse gênero. Mesmo assim, um filme me chamou a atenção e, portanto, resolvi compartilhar minhas impressões nada especializadas nesse espaço.

Espíritos – A Morte está ao Seu Lado é um filme lançado em 2004 na distante Tailândia, dirigido por Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom. Até eu que sou neófito no gênero sei que a Ásia – em especial o Japão, talvez – é famosa pelos seus filmes de terror, então fui assistir a película esperançoso de que teria uma experiência marcante… e não me decepcionei!

Trailer

Um jantar com amigos, regado a muita bebida e na companhia da bela namorada. Um agradável momento no qual todos ali se divertiam, enquanto lembravam lá e cá histórias da época do colégio. Aparentemente uma noite auspiciosa… Todavia, voltando para casa, Tun (Ananda Everingham) e Jane (Natthaweeranuch Thongmee) acabam por atropelar uma moça. Desesperados, fogem da cena sem ao menos verificar se a menina estava viva ou morta. Embora livres de qualquer sanção legal, o incidente não deixa de atormentá-los e, por mais que aquilo os incomodasse, a vida tinha que seguir. Ambos, portanto, tentavam manter suas rotinas na faculdade e no trabalho, mas uma série de curiosos fenômenos começa a ocorrer: barulhos estranhos, luzes que se apagam sozinhas, sonhos terríveis, vultos inexplicáveis em fotos… Seriam aquilo meros reflexos psicológicos do trauma causado pelo acidente ou havia ali algo de sobrenatural? Talvez o espírito da menina atropelada quisesse vingança? É mais ou menos a partir dessas perguntas que o enredo vai se desenrolando. E se o argumento a princípio é demasiadamente simples, apenas um conceito para justificar uma série de sustos, ele vai se complexando a ponto de se tornar um dos pontos fortes do filme.

Mas talvez o mais espetacular do longa seja o clima. Poucas obras conseguem criar uma atmosfera de terror tão bem. Diversos elementos colaboram para tanto: jogo de câmeras, ambientação, luz, trilha sonora e, principalmente, a escolha da atriz que antagoniza com Tun e Jane. É claro que os sustos causados por barulhos altos e inesperados estão presentes, mas é esse clima que permeia toda a obra que vai lhe dar angústia e, vez ou outra, um calafrio. Um ótimo filme para ser assistido sozinho, com a luz apagada e no meio da madrugada.

P.S.: No Brasil foi lançado Espíritos 2, mas embora o título sugira ser uma sequência, não há nenhuma relação com esse filme aqui.

Nota: 8.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: ชัตเตอร์ กด ติด วิญญาณ
  • Título em inglês: Shutter
  • Ano de lançamento: 2004
  • Diretor: Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom

Nenhum a Menos [1999]

Not One Less poster

Estava pensando qual filme iria escolher para meu segundo – e atrasado – post e me lembrei de um dos meus prediletos: Nenhum a Menos. Não é fácil falar sobre algo que se gosta muito, já que o risco de se exceder em análises subjetivas é um tanto maior. Mas vou me esforçar para ser equilibrado.

Nenhum a Menos é um filme chinês lançado 1999 e dirigido por um dos meus diretores prediletos, Zhang Yimou – vocês ainda me verão falar dele diversas outras vezes. Feito na China continental, o filme é baseado num romance escrito por Shi Xiangsheng, cujo título é “Tiān Shàng Yǒu Ge Tàiyáng” (天上有个太阳). A primeira vez que assisti ao filme não me atentei a essa informação e, quando fui vê-lo novamente para escrever essa “resenha”, acabei por ficar bastante interessado em ler o livro, que aparece com um título em inglês no filme: “A Sun in the Sky”. Cheguei mesmo a procurá-lo para comprar, mas não achei nenhum vestígio dele, logo não sei se essa obra foi mesmo traduzida para o inglês (se alguém souber, me avise!). Enfim, voltando ao filme…

A sensibilidade com que ele foi feito é singular. Tudo no filme é belíssimo! Até mesmo a trilha sonora que costuma me passar despercebida (a não ser quando me incomoda) é capaz de me emocionar. A atuação é digna de nota. Yimou escolheu apenas atores amadores, cujas histórias de vida são parecidas com as dos personagens que interpretam. O resultado não poderia ser melhor. Apesar de, em regra, não terem experiência, o senso de realismo atingido é altíssimo e parece existir um vigor muitas vezes não experimentado em produções profissionais. Cada ator parece encaixar-se perfeitamente no papel. Fora que as crianças têm sorrisos lindos.

Música tema

O filme é sobre a lacuna existente na China entre a zona rural – paupérrima – e a zona urbana – mais desenvolvida –, e o impacto dessa realidade no plano educacional. A vila de Shuiquan é uma das representantes da realidade rural. A única escola da localidade, além de caindo as pedaços, tem dificuldades para suprir os materiais escolares e precisa deixar numa mesma sala de aula – a única – alunos de idades diferentes. O professor, Gao, aparentemente um senhor obstinado na educação das crianças, tem que se ausentar por um mês, devido a uma doença da mãe. Para substitui-lo, o prefeito da pequena vila contrata uma garota de apenas treze anos, que claramente não tem condições para exercer o cargo. Apesar de não ficar nem um pouco satisfeito com a situação, o professor Gao não tem outra escolha a não ser deixá-la assumir sua vaga. A menina, Wei Minzhi, espera ganhar um honorário de 40 yuans pelo trabalho de um mês e o professor Gao promete um adicional de mais 10 yuans caso nenhum aluno abandone a escola nesse período, um dos principais problemas enfrentado nas zonas rurais. Wei Minzhi se mostra uma professora perdida, sem saber como proceder com os alunos e, para piorar tudo, Zhang Huike, o aluno mais desordeiro, abandona a escola rumo à cidade em busca de um trabalho para ajudar a família em grandes dificuldades financeiras. Então, a jovem professora, determinada em cumprir a meta de não permitir que nenhum aluno abandone a escola, parte numa verdadeira jornada atrás de seu aluno.

Um filme sensível, bem feito e realista. Impossível não se emocionar.

Nota: 10.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 一个都不能少 (Yíge Dōu Bùnéng Shǎo)
  • Título em inglês: Not One Less
  • Ano de lançamento: 1999
  • Diretor: Zhang Yimou

Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo [2010]

Prince of Persia poster

Escolhi falar desse filme pelo simples fato de ter sido o último que assisti. Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo é uma produção hollywoodiana dos estúdios Disney. Lançado em 2010, o filme é baseado em um jogo de computador e videogames homônimo, de 2003, que por sua vez, é uma recriação de um ainda mais antigo, de 1989 (que – adivinhem! – também se chamava Prince of Persia). Apesar desse fato, as semelhanças entre o jogo de 2003 e o filme são restritas, isso porque o longa-metragem recebeu um roteiro original.

Sands of Time 2003 cover Prince of Persia 1989 cover
Imagens: Capa dos jogos. À esquerda, Prince of Persia: Sands of Time, de 2003. À direita, o primeiro Prince of Persia, de 1989.

O filme tem tudo que se pode esperar de uma produção de Hollywood: bons figurinos, efeitos especiais bem executados, cenas de ação dinâmicas… As atuações são apenas ok e o enredo, claro, não é o dos melhores. Mas o filme não é ruim e eu até consegui me divertir assistindo-o. Parece-me que Príncipe da Pérsia é uma clara evolução nas adaptações para a telona dos jogos de videogame.

A história do filme acompanha Dastan (Jake Gyllenhaal), um menino órfão de ambos os pais que cresceu na periferia de Nasaf, na Pérsia. Apesar da infância difícil, Dastan teve sua vida completamente alterada após ser adotado pelo rei, depois que este presenciou um ato de coragem e justiça realizado pelo órfão. Somos então transportados para um acampamento do exército persa nas imediações de Alamut, quinze anos depois dos eventos iniciais do filme. A cúpula do exército persa, comandada por Tus (Richard Coyle), “irmão” de Dastan e príncipe herdeiro do império, discute informações obtidas de espiões: a bela cidade estaria produzindo armas de grande qualidade técnica e vendendo-as para inimigos da Pérsia. Apesar de o exército ter se deslocado até ali apenas para derrotar um general inimigo, as novas informações alteram os planos iniciais. O exército atacará Alamut para neutralizar a ameaça oferecida pela cidade.

Enquanto isso, Tamira (Gemma Arterton), a bela princesa de Alamut, percebendo as intenções persas, começa preparativos para defender a cidade. Todavia, ao invés de se preocupar com as muralhas e portões, Tamira volta suas atenções para algo misterioso, com feições místicas, que fica no interior da cidade (só saberemos exatamente o que é com o decorrer do filme). O ataque acontece e conta com a participação decisiva de Dastan que com suas acrobacias consegue praticamente sozinho abrir um dos portões da cidade. A vitória dispara uma série de clichês que vão conduzir o resto do enredo: traições, busca de poder, inimigos que viram amigos, histórias de amor entre antagonistas, jornada para salvar o mundo de um cataclismo, enfim, elementos frequentemente vistos em blockbusters.

Não me estenderei mais para não estragar a graça de se assistir o filme. Mas digo que mesmo que o enredo seja rasteiro, o filme tem suas qualidades e serve muito bem para se divertir num sábado à tarde. É claro que o filme pouco explora do que foi a Pérsia e acaba recorrendo a diversos lugares-comuns, então não o assista querendo ver nada mais profundo. Desligue o cérebro e divirta-se.

Nota: 5.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: Prince of Persia: The Sands of Time
  • Ano de lançamento: 2010
  • Diretor: Mike Newell
  • Elenco: Jake Gyllenhaal, Ben Kingsley, Gemma Arterton, Alfred Molina