Sobre Rafael Bara

Estudante de História, Língua, Literatura e Cultura japonesa e apaixonado pelo Oriente.

Meu amigo Totoro (1988)

Tonari no Totoro

Não deve ser surpresa para ninguém que a animação – e sua mídia irmã, os quadrinhos – é uma paixão dos japoneses e, também, uma arte que os nipônicos, desde idos dos anos 1960, têm desenvolvido e inovado reiteradas vezes (tanto no que tange aos aspectos técnicos, como no que concerne à linguagem em si). Se perguntarmos para um japonês quem ele considera o pai dos anime¹ (como os japoneses se referem à “animação”), muito possivelmente teremos como resposta Tezuka Osamu. Mas se a pergunta for “qual seu diretor do coração”, suspeito que obteríamos com certa frequência o nome de Miyazaki Hayao (Tezuka merece alguns textos e certamente aparecerá aqui futuramente).

Miyazaki, junto de Takahata Isao e Suzuki Yoshio, é um dos fundadores do Studio Ghibli, uma das principais empresas de animação do Japão. Inaugurada em 1985, a companhia é tão bem sucedida que entre as quinze animações japonesas de maior bilheteria, 8 foram feitas pelo Ghibli. O nome do estúdio é curioso: Ghibli é uma palavra árabe que nomeia um vento quente que sopra do Saara em direção ao Mediterrâneo (por aqui chamamos esse vento de Siroco). Durante a Segunda Guerra Mundial, entretanto, essa palavra foi usada no nome de um avião de reconhecimento italiano: o Caproni Ca.309 Ghibli. Miyazaki, um entusiasta de aeronaves, escolheu essa palavra para nomear a companhia que estava criando, pois queria que a mesma representasse um sopro “quente” na indústria da animação do Japão.

Tonari no Totoro (“Meu amigo Totoro” na tradução brasileira) não é o primeiro filme do estúdio, tampouco o mais famoso internacionalmente. A despeito disso, a animação foi, desde pouco depois de seu lançamento em 1988, um enorme sucesso no Japão, marcando de forma indelével a história da companhia. A identificação de Totoro com o Ghibli é tão grande que a criatura grandalhona até passou a fazer parte da logomarca da empresa (na verdade, aparecem três “Totoro” no filme; sendo que dois deles estão na logomarca; o grandão e o pequeno).

Logo Studio Ghibli

Logomarca do estúdio

Escrito e dirigido por Miyazaki, Meu amigo Totoro já apresenta todo o esplendor fantástico, misturado com a representação aguçada da infância, aspectos sempre muito bem trabalhados pelo diretor. O enredo acompanha pai e filhas da família Kusakabe que se mudam para um subúrbio rural de Tóquio, ficando, assim, mais próximos da mãe que está internada em um hospital, se recuperando de uma doença (tuberculose, embora só implícito). Logo de cara, as duas pequenas, ao ingressarem pela primeira vez na nova casa, passam por um túnel de árvores e, a partir daí, entram em contato com o fantástico, como se a entrada da nova residência fosse uma espécie de símbolo da passagem entre o profano e o sagrado. Essa estratégia é repetida no filme, com a imagem da passagem pelo “túnel” funcionando como um intermediador entre as duas esferas (a bem da verdade, Miyazaki parece gostar dessa imagem, visto que ela é reiterada em outras de suas obras).

Aqui vale uma observação: não seria um pouco exagero conectar “fantástico” e “sagrado”? Não digo que para todas as ocorrências será esta resposta, mas no caso do Japão e especificamente em relação ao Meu amigo Totoro, creio que a conexão entre os dois seja bastante plausível. Sem alongar muito, explico: o povo japonês ainda hoje tem fortes ligações com o mundo natural e isso influencia na forma como eles percebem o sagrado. Mesmo após a entrada do Budismo no arquipélago, essa forma de se apreender o sobrenatural (que começou a ser sistematizada no século VI com o nome de xintoísmo [shintō, 神道]) permaneceu presente como uma das camadas de “compreensão” religiosa dos japoneses. Ora, a partir disso representar o sagrado como figuras fantásticas oriundas da natureza não é nada absurdo.

Trailer

Digressões à parte, a nova residência da família Kusakabe parece estar pululada de criaturas fantásticas, algo que atrai consideravelmente as duas irmãs: Satsuki e Mei. A propósito, é realmente incrível como Miyazaki sabe retratar bem crianças: o comportamento das duas é muito convincente como, por exemplo, quando a pequena Mei imita tudo que a irmã mais velha faz. Das criaturas fantásticas, decerto as mais interessantes são os “Totoro”. Encontrados pela Mei, quando a menina explorava o jardim da casa, os “Totoro” funcionam como os kami (神) do xintoísmo (espécie de espíritos da natureza… lembram-se do que eu falei da interpolação entre “mundo natural” e “sagrado”?) e vivem numa enorme árvore ali por perto. A árvore, todavia, não é qualquer: ela é um yorishiro, um objeto transformado através de rituais numa morada de um kami, o que reforça a minha leitura da conexão entre “fantástico” e “sagrado” na obra (sabemos que a árvore é um yorishiro por causa da corda amarrada em volta dela). A partir disso, o filme vai se desenrolar explorando a relação entre as duas meninas e os “Totoro” (em especial o grandalhão) e, concomitantemente, o desenvolvimento da doença da mãe.

Embora seja feita para um público infantil, Meu amigo Totoro é uma animação extremamente bem produzida e dirigida, capaz agradar também um público adulto, especialmente por sua atmosfera, nas palavras de Miyazaki, “serena, tranquila e inocente”. Destaca-se sobremaneira o universo fantástico da obra – uma mistura bem dosada das tradições japonesas com criações da mente inventiva de Miyazaki – que pode seduzir qualquer um que queira decifrar um pouco das inspirações do autor. Se uma criança vai se encantar com a arte e com a história, um adulto pode muito bem se instigar com aquilo que fica implícito: o túnel como passagem entre “mundos”; o fantástico que só é visível para as crianças; o explorar do universo sagrado… Enfim, uma excelente pedida para todos!

Nota: 9.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: となりのトトロ (Tonari no Totoro)
  • Ano de lançamento: 1988
  • Diretor: Miyazaki Hayao

Notas:

  1. Abreviação da palavra アニメーション (animēshon), oriunda do inglês “animation”. Vale lembrar que na língua japonesa, ao contrário do que ocorre em determinadas variantes do português brasileiro, palavras terminadas em “e” ou “o” cujas sílabas finais não são tônicas, não sofrem uma alteração vocálica na fala para, respectivamente, “i” e “u”. Isto é, embora “carro” seja escrito com “o”, é comumente pronunciado como “carru” aqui no Brasil. Tal fenômeno não ocorre no japonês e, portanto, a pronúncia mais próxima da palavra アニメ (anime), seria “animê” (e não “animi”). Voltar
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Oldboy – Dias de Vingança (remake) [2013]

Capa - Oldboy [2013]

Não é surpresa para ninguém que Hollywood adora fazer versões de filmes internacionais de sucesso, seja de crítica ou de público. Também não é novidade que muitas dessas versões são bastante aquém das originais (para não dizer a imensa maioria). Uma, no entanto, me despertou o interesse desde seu anúncio e por dois motivos muito simples: seria uma refilmagem do excelente Oldboy (veja meu texto sobre ele aqui) e seria dirigida por Spike Lee, um diretor talentoso, um tanto polêmico e bastante engajado em causas políticas, especialmente àquelas vinculadas ao movimento negro. Parecia-me, portanto, que tê-lo no comando poderia adicionar ao filme elementos novos e estimulantes e, desse modo, tornar a obra hollywoodiana não uma mera repetição de sua contraparte oriental, mas um filme que pudesse “andar com suas próprias pernas”.

Trailer

Após alguns meses de seu lançamento e da frustração de não conseguir ir ao cinema, enfim consegui assisti-lo… E o filme começa bem, com um Josh Brolin muito competente em caracterizar um personagem inescrupuloso. Só que, conforme o filme ia avançando, para a minha apreensão, nada de novo surgia. Onde estariam os toques revigorantes que eu esperava de Lee? Não existem! Não existem em absoluto! Talvez uma violência gráfica um pouco maior, mas morre por aí… E pior que isso, o remake não só não trás nada de novo, como consegue adicionar cá ou lá algum problema inexistente na obra original. Ora, o mínimo que se espera de uma obra adaptada é que tenha um roteiro redondo, afinal parte de toda uma gama de experiências, erros e acertos da versão original e, portanto, navega por mares já navegados. Falhas nessas circunstâncias são muito mais graves e o filme de Lee tem algumas delas. A principal, a meu ver, é o final. Spike Lee optou por alterar o desenlace original. Não acho isso necessariamente ruim, desde que se tivesse trocado por um final tão impactante quanto o da obra de origem. Mas não foi o que aconteceu… Pelo contrário, o desfecho é bem sem sal.

Enfim, eu até me diverti assistindo ao filme, mas não fiquei aturdido como quando vi o filme coreano. Fosse uma obra original, o filme de Lee poderia ter sido melhor recebido, mas sendo uma refilmagem e apresentando falhas inexistentes no longa que serviu como base, é inevitável avaliá-lo de forma muito mais rigorosa. E, nesse caso, o que sobra é isso mesmo: um filme apenas “ok”.

Nota: 6.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: Oldboy
  • Ano de lançamento: 2013
  • Diretor: Spike Lee
  • Elenco: Josh Brolin, Elizabeth Olsen, Sharlto Copley, Samuel L. Jackson, Michael Imperioli

Oldboy [2003]

Oldboy [2003]

Seu dia começou mal. É aniversário de quatro anos da sua filha, mas você está retido numa delegacia de polícia, completamente embriagado. Por fim, depois da ajuda de um amigo, consegue ser liberado para enfim poder voltar para casa e rever esposa e filha. Porém algo acontece e você acorda num quarto estranho, hermeticamente fechado, sendo que seu único contato com o mundo externo é um televisor. Você não faz ideia de como chegou ali, nem do porquê de ter sido trancafiado naquele lugar, de quem o capturou, muito menos de quando sairá. Sua vida é decidida nas minúcias por outrem: escolhem quando você vai dormir, o que vai comer, quando irá cortar o cabelo… tudo. Você é constantemente dopado, vive tendo alucinações e não tem nem mesmo o direito a se matar, por QUINZE ANOS! Esse é o pano de fundo Oldboy, filme coreano dirigido por Park Chan-wook. Vencedor do Grand Prix e indicado à Palma de Ouro do aclamado Festival de Filmes de Cannes em 2004 e premiado em diversos outros cantos do mundo, Oldboy é o segundo filme da “Trilogia da Vingança”, – filmes dirigidos por Park que, a despeito de não terem relação direta um com o outro, têm como mote a “vingança”.

Trailer

A trama de Oldboy, uma mistura de drama, thriller psicológico e criminal, é baseada numa série de mangás homônima, criada por Nobuaki Minegishi e Garon Tsuchiya (aos interessados, a obra está sendo lançado pela editora Nova Sampa), embora, claro, adaptações sejam necessárias para encaixá-la numa nova mídia. Para além das adaptações, todavia, o enredo funciona muito bem nas telonas. Desde o início do filme somos fisgados pelo fluxo de acontecimentos e ficamos ávidos para entender o que está acontecendo com Oh Dae-su, o pobre coitado do protagonista. E quanto mais tudo vai se esclarecendo, mais perplexos vamos ficando, até o desfecho – ah! o desfecho – que é surpreendente!

Se o argumento é sólido, contudo, o filme não se limite a ele. A direção de Park é bastante eficiente e a atuação de Choi Min-sik (que interpreta Oh Dae-su) convence, principalmente nas cenas em que ele está na clausura, momentos nos quais podemos sentir as perturbações psicológicas do personagem tanto pela caracterização incrível como pelas feições de Min-sik. Após a misteriosa libertação de Oh Dae-su, Oldboy muda de fase: sai a sensação de sufocamento e entra sentimentos de curiosidade e desforra. E aí Park fez as escolhas corretas. Primeiro soube dosar bem a velocidade com a qual as peças do quebra-cabeça vão sendo reveladas. Depois, não quis mostrar ao espectador cada pequeno avanço na trama, deixando a nosso cargo entender o que está se passando. Não digo que em algum momento as transições sejam obscuras… apenas sutis, evitando aquele sensação pasteurizada. Por fim, Park acertou em cheio no uso da trilha sonora, que muitas vezes parece estar em certa dissonância com a imagem, fato, todavia, que não cria estranhamento. Ao contrário, acaba gerando uma atmosfera apropriada para o desenvolvimento do filme.

Oldboy é um filme por vezes chocante, por outras opressor, mas de inegável senso artístico e capaz de nos prender do início ao fim. Um dos grandes filmes coreanos, sem dúvida.

Nota: 8.5 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 올드보이 (Oldeuboi)
  • Ano de lançamento: 2003
  • Diretor: Park Chan-wook
  • Elenco: Choi Min-sik, Yoo Ji-tae, Kang Hye-jung

Últimas novidades do blog

Hoje estou aqui para comentar um pouco sobre algumas novidades que pintaram no blog na semana passada e, além disso, divulgar uma ótima notícia.

Talvez alguns já tenham percebido, mas o blog agora estendeu seu alcance para duas redes sociais: Facebook e Twitter. Desse modo, teremos mais meios de nos comunicar e, também, espaços para vincular notícias que não são apropriadas para o blog. Por exemplo, pelas redes sociais podemos anunciar o lançamento de algum livro ou quando algum filme entrar em cartaz nos cinemas, algo que não faria sentido aqui. Ademais, com a página no Facebook e a conta no Twitter vocês poderão ficar sempre ligados quando sair um texto novo. Deem uma olhada!

Mas o melhor mesmo ainda está por vir! Convidei um grande amigo, outro apaixonado pelo Oriente, a colaborar aqui no blog. Ele não só aceitou como já tem um texto pronto para lançar no decorrer da semana. E, acreditem, é material de primeira qualidade, vindo de um verdadeiro especialista. Dou, então, minhas boas vindas ao Heitor Loureiro. Fiquem ligados!

A Chave

A Chave [Capa]

Depois de um pequeno (tá bom, tá bom… grande) atraso – culpa de um relatório de pesquisa que tive que fechar nessas últimas semanas – trago-lhes o prometido terceiro texto falando sobre uma obra de Tanizaki. O livro que escolhi para lhes apresentar dessa vez é o magnífico A chave.

A chave é uma obra curta (creio que “novela”, ao invés de “romance”, seja a classificação mais apropriada), daquelas para se ler numa sentada. O livro, de certa forma, mistura o gênero epistolar com o – tradicionalíssimo no Japão – gênero de diários. Mas como afinal é possível essa mistura? Explico… Toda a narrativa gira em torno de dois diários: um do marido e outra de sua esposa. Acontece que diários são, em essência, escritos pessoais, que não são feitos para serem compartilhados com outras pessoas. Eventualmente acho que até podemos imaginar situações que uma pessoa deixe outrem ler o próprio diário, mas o caso contado no livro, contudo, é distinto. Esposo e esposa escrevem cada qual seu diário com o intuito deliberado que o cônjuge leia. A despeito desse propósito, porém, ambos fingem que não querem ser lidos e, mais do que isso, dissimulam o fato de que sabem que a contraparte lê às escondidas o seu diário. Resumindo: o marido lê o diário da esposa, a esposa lê o do marido, mas todos disfarçam tal ocorrência. Desse modo, um escrito que tem em sua origem uma intenção privada, passa a ser usado para a comunicação entre o casal, se aproximando, então, de uma troca de cartas.

Mas por que raios eles optaram por esse meio excêntrico de comunicação? Simplesmente porque os assuntos abordados feririam a lógica social e, portanto, eram entendidos por ambos como tabus. Sabemos que ainda hoje o Japão é uma sociedade que reprime a sexualidade (não à toa as bizarrices que saem de lá), algo ainda mais intenso na década de 1950, data do livro. Como então falar abertamente de sexo, fetiches, adultério e coisas do tipo? O meio indireto e dissimulado escolhido para o diálogo, logo, se torna apropriado para explorar possibilidades até então socialmente negadas.

Só que o bacana da obra não morre aí. Como os diários são manifestações de discursos diretos, nós leitores somos jogados em meio a um jogo tácito de manipulação, no qual até o silêncio é repleto de significados e não podemos acreditar em quase nada. E quando digo quase nada, eu digo quase nada mesmo! Quanto mais lemos o livro, mas vamos percebendo que ninguém ali é confiável. E isso torna o livro magnífico, pois cada leitor terá elementos suficientes para interpretações bastante plausíveis dos fatos.

A chave é uma obra ousada, evolvente, bem escrita que, além de deleitar, apresenta um enredo simples, mas rico em nuanças. Leitura recomendadíssima!

Nota: 9.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 鍵 (Kagi)
  • Autor: Tanizaki Jun’ichirō (谷崎润一郎)
  • Tradutor: Jefferson José Teixeira (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Companhia das Letras, 2000

Há Quem Prefira Urtigas

Há Quem Prefira Urtigas [Capa]

Quando li um livro do Tanizaki Jun’ichirō pela primeira vez, tive um choque. Até aquele momento todas minhas experiências com romances japoneses me apresentavam um mundo e uma mentalidade, digamos, “fechada”. Eram sempre personagens que se comportavam de acordo com o que é esperado da “face exterior” de um japonês. É verdade que aqui ou ali até podíamos enxergar o lado de dentro desses personagens e é igualmente verdadeiro que muitas vezes o “desnudar” desse lado que o japonês tem de manter oculto da sociedade era justamente o objetivo dos escritores. Todavia, todos caminhavam em direção a esse objetivo de forma bastante sutil. Com Tanizaki, no entanto, foi diferente, pois ele optara por uma abordagem mais direta, forte e sem rodeios. Imaginem, em plena década de 1920, um escritor oriundo de uma sociedade na qual o sexismo imperava (por sinal, até hoje ainda é bem forte) escrever a respeito de uma relação extraconjugal entre duas mulheres! Conforme fui lendo outros livros do autor, percebi que aquele tipo de abordagem se repetia quase sempre. Desnecessário dizer que um escritor competente como Tanizaki não escolheria esse caminho apenas para chocar. Há objetivos por trás dessa opção, mas não entrarei no mérito da questão, até porque hoje quero falar de uma de suas obras mais leves, quiçá a menos chocante delas.

Há Que Prefira Urtigas é a história de um casamento que, depois de alguns anos, só existe formalmente. Kaname e Misako já não têm atração um pelo outro e, portanto, um relacionamento real entre os dois já não é mais possível. A despeito de o casal ter percebido isso e até já terem se decidido pelo divórcio, nenhum dos dois toma o passo decisivo para o rompimento. Muitas coisas entram na conta: como o filho de dez anos lidaria com a separação, a posição dos dois perante a sociedade, as opiniões do sogro de Kaname, etc. A separação, todavia, é inevitável. Misako, por exemplo, já se relaciona com outro homem, caso não só sabido como apoiado por Kaname. Diferentemente de várias outras histórias do Tanizaki, essa é narrada em terceira pessoa e tudo leva a crer que não há espaços para manipulações na narração. Todos os personagens parecem ser expostos de maneira bastante honesta… Embora em terceira pessoa, contudo, a focalização frequentemente está em Kaname, personagem que funciona como um fio-condutor da obra. Bem, talvez não tanto condutor, pois ele é hesitante, indeciso, difuso, covarde até, eu diria. Não é tão difícil se irritar com ele vez ou outra. Isso, entretanto, não é um ponto negativo, pois faz sentido para o enredo esse perfil psicológico do protagonista.

Não é raro encontrarmos elementos que levantam dicotomias (muitas vezes suscitadas pelas personagens femininas da obra, embora não só por elas): Ocidente x Oriente, tradicional x moderno, velho x novo… Não me parece, porém, que Tanizaki pretendesse “escolher” um desses lados, como alguns críticos costumam sugerir. Para mim, o autor localiza a obra numa zona cinzenta intermediária entre os dois polos, tendo em Kaname o grande expoente desse aspecto de indefinição, talvez até uma metáfora do próprio Japão daqueles anos (década de 1920). Julgo Há Que Prefira Urtigas obra fundamental para todos que querem compreender um pouco mais do Japão.

Nota: 8.5 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 蓼喰ふ蟲 [蓼食う虫] (Tade kū mushi)
  • Autor: Tanizaki Jun’ichirō (谷崎润一郎)
  • Tradutora: Leiko Gotoda (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Companhia das Letras, 2003

Em Louvor da Sombra

Em Louvor da Sombra [Capa]

Promessa feita, promessa cumprida! Depois de o Japão aparecer pela primeira vez aqui no blog no meu último texto, ele volta agora numa “trilogia”. Entre aspas, pois, na realidade, os três livros que aparecerão em sequência por aqui, embora do mesmo autor – o genial Tanizaki Jun’ichirō –, não têm entre si conexão lógica, ainda que, claro, possam dialogar aqui ou ali… No caso específico da obra que lhes trago hoje, sendo franco, talvez fosse até mais correto dizer que todos os outros livros do autor estabeleçam um diálogo considerável com este daqui.

Em Louvor da Sombra não é um romance, nem uma novela, muito menos um conto. Tampouco um livro de poesias. É um ensaio… Sim! Um ensaio! Isso por si só já basta para criar a atmosfera de uma obra imponente e somando-se ao fato de que ela versa a respeito da cultura japonesa (assunto inegavelmente bastante complexo), temos pronta a imagem de um livro extenso, intricado e complicadíssimo, certo? Errado! Em Louvor da Sombra é uma obra de apenas sessenta e poucas páginas, escrita numa linguagem notadamente simples e num tom tão leve que faz até parecer que o autor está numa conversa descompromissada com seus leitores. Para terem a ideia do que digo, há dado trecho do livro que o autor descreve com detalhes a receita de um prato da culinária japonesa que ele julga ser um daqueles autênticos representantes da alma japonesa. A despeito dessa forma amena de o autor abordar o assunto, entretanto, o conteúdo é de grande qualidade.

É evidente que um livro com essas características não pode nunca almejar ser compêndio de coisa alguma, ainda mais quando se trata de um assunto espinhoso. Em Louvor da Sombra, no entanto, entrega o que propõe, isto é, uma visão estética da cultura nipônica vista pelo olhar agudo de Tanizaki, mas que em momento algum pretende ser mais do que isso: a apreensão do autor a respeito de seu objeto. Só que, embora seja apenas a visão particular de um homem, a perspicácia de Tanizaki para perceber detalhes, que de tão óbvios são dificílimos de intuir, é digna de nota, como também é admirável a capacidade de sintetizar tudo isso num título. Nesse caso em específico sem precisar me importar com o pudor de não revelar detalhes da obra, pois de um ensaio não se espera as surpresas de um roteiro de romance, posso dizer que a grande sacada de Tanizaki foi justamente notar que o traço que difere os japoneses é o apego pelas sombras. Isso os contraporia aos ocidentais que, segundo o autor, buscam em todos os aspectos de suas vidas a luminosidade. O “louvor” às sombras, portanto, legariam aos japoneses uma visão peculiar das coisas e, em última instância, uma maneira distinta de encarar a vida. Para Tanizaki essa diferença de olhares se manifestaria desde a forma dos banheiros, passando pela arquitetura e chegando até mesmo à cor da pele. Em suma, se para os ocidentais a falta de luz oprimiria, para os japoneses estesiaria.

O ensaio de Tanizaki é curto é fácil de ler, por um lado, mas propõe uma estética muito bem pensada, por outro. Isso por si só já bastaria para endossar a leitura do livro, porém, se adicionarmos a perspectiva que o jogo de luz e sombra leva até às outras obras de Tanizaki – especialmente talvez na construção de seus personagens –, faz com que a leitura de Em Louvor da Sombra seja quase obrigatória para qualquer um interessado na literatura japonesa.

Nota: 9.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 陰翳礼讃 (In’ei raisan)
  • Autor: Tanizaki Jun’ichirō (谷崎润一郎)
  • Tradutora: Leiko Gotoda (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Companhia das Letras, 2007

O País das Neves

O País das Neves [Capa]

Rufem os tambores. Ascendam os fogos de artifício. Preparem um banquete… Finalmente, depois de longa data, enfim o Japão aparece nesse espaço! Devo admitir certa surpresa – e quem me conhece provavelmente compartilhará meu espanto – por esse fato. E o motivo é um tanto simples: embora eu admire o Oriente como um todo, o Japão é, inegavelmente, o país pelo qual eu projete minhas atenções com mais ardor. Frente a isso hão de concordar que é um tanto estranho essa demora que, reconheço, não sei dizer o motivo. Em compensação, se meus planos forem seguidos à risca, essa longa espera será mais que compensada nas próximas semanas… Sem mais delongas, vamos ao tópico de hoje!

Sou grande fã da literatura japonesa e adoro um punhado de autores do país do sol nascente. O que inaugurará o Japão aqui no blog, no entanto, não foi escolhido simplesmente por eu apreciar sua obra – embora de fato eu seja grande fã. O motivo da escolha é um tanto mais pragmático e se baseia exclusivamente no fato de que ele obtivera amplo reconhecimento internacional e, consequentemente, tenha sido o primeiro escritor japonês laureado com o Prêmio Nobel de Literatura (em 1968): apresento-lhes Kawabata Yasunari!

Kawabata é um daqueles autores que sabem colocar as palavras com tamanha maestria que a simples encadeação delas é capaz de levar o leitor ao gozo profundo. Dono de uma escrita “lírica” que foi considerada pela Academia Sueca de “grande sensibilidade” e a expressão “[d]a essência da mente japonesa”, tenho a impressão que Kawabata consegue provocar com a prosa o mesmo enlevo da poesia. Nesse aspecto, é quase ponto pacífico que O País das Neves seja sua obra-prima.

A obra é uma novela originalmente serializada entre os anos de 1935 e 1937 e que chegou ao Ocidente pelas mãos do estudioso da literatura japonesa, Edward Seidensticker, em sua tradução para a língua inglesa em meados da década de 1950. Lembro-me de uma vez, numa discussão em aula, um colega chegou a dizer que na primeira vez que tinha lido O País das Neves, ao chegar ao fim do livro, não conseguiu captar exatamente qual era seu enredo. Por mais absurdo que posso parecer esta assertiva, a impressão de meu colega não me parece estar de todo equivocada. Não que o livro não tenha enredo. É claro que tem! Mas, especialmente para nós Ocidentais, acostumados com um tipo de trama, O País das Neves pode causar certo estranhamento numa primeira leitura. Mais do que uma história que evolui paulatinamente até o ápice e seu desenlace, O País das Neves é um livro calcado em sensações, cores, sons, cheiros… uma experiência inteiramente sinestésica! Não foram poucas vezes que, em meio a uma cena aparentemente banal, me vi pululado por uma profusão de sensações indescritíveis! Arrisco-me a dizer que O País das Neves é um livro que mais apreendemos do que entendemos. Apesar disso – ou mais apropriado dizer, justamente por isso –, a leitura não é exatamente fácil. Ser capaz de captar todas as camadas de sentidos proposta por Kawabata é tarefa para um leitor maduro. A despeito disso, acho a leitura agradabilíssima e estou certo que O País das Neves é um daqueles livros que precisamos voltar a eles algumas vezes durante nossas vidas e nos deliciarmos com toda uma miríade de novas experiências.

Nota: 9.5 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 雪国 (Yukiguni)
  • Autor: Kawabata Yasunari (川端康成)
  • Tradutora: Neide Hissae Nagae (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Estação Liberdade, 2004

Os Poemas Suspensos [Al-Muʿallaqāt]

Os Poemas Suspensos

Passei anos da minha vida detestando poesias. Lembro-me, por exemplo, como era um suplício as partes que continham cantos n’O Senhor dos Anéis quando li a trilogia no início da minha adolescência. Encarar Gregório de Matos, Gonçalves Dias, Manoel Bandeira, entre outros, nas aulas de literatura do colégio, então, nem se fala… Minha opinião a respeito só começou a se alterar muitos anos mais tarde, após ter tido a possibilidade de acompanhar uma disciplina ministrada por um professor que, além de muitíssimo competente, claramente amava o que fazia. Depois dessa experiência, além de mais maduro e ciente das “ferramentas” necessárias para se fruir a arte poética, passei a compreender melhor o que de fato seria a poesia e, assim, pude, pela primeira vez na minha vida, começar a “entendê-la” em sua essência. Voltei a alguns daqueles autores que me atormentavam e, hoje, sou apreciador de vário deles. Mas o tema do blog é o Oriente, logo não é nenhuma surpresa que seja de lá o texto que trago para esse espaço hoje.

Os Poemas Suspensos (ou Al-Muʿallaqāt no original em árabe) é um conjunto de dez poemas longos, oriundos da Arábia pré-islâmica. Pretensamente a obra-prima dos dez maiores poetas do mundo árabe antigo. A bem da verdade, esse número “dez” é um tanto controverso, pois há quem defenda números um pouco distintos (por exemplo, há compiladores que sugerem sete poemas e, consequentemente, sete poetas). E, sejamos francos, os próprios poemas estão envoltos numa atmosfera um tanto polêmica, visto que chegaram até nós a partir do trabalho executado por compiladores muçulmanos que podem muito bem terem feito uma seleção enviesada ou, pior ainda, falsificado lá ou cá os poemas, no afã de estabelecerem uma oposição entre as “trevas” de mundo pré-islâmico e a “luz” trazida pela nova religião. Polêmicas à parte, vamos nos afundar um pouco mais no texto.

Comecemos pela tradução. Qualquer um que já se aventurou no exercício de traduzir alguma coisa sabe que a tarefa é ingrata. Imagine, então, traduzir um texto antigo de uma cultura consideravelmente diferente da nossa… Esse desafio foi autoimposto pelo escritor carioca Alberto Mussa (autor de, por exemplo, O enigma de Qaf, romance do qual pretendo compartilhar minhas impressões aqui no blog assim que possível). Conta o tradutor que ficou apaixonado pelos poemas “suspensos” no exato momento que pôs os olhos em alguns de seus fragmentos, contidos numa antologia francesa de poesia árabe. A partir daquele momento resolveu traduzi-los para o português. Acontece que Mussa não conhecia árabe, mas sabia que muito se perderia se traduzisse de uma versão do francês ou do inglês. Logo, resolveu aprender o idioma, empresa que lhe ocupou quatro anos. Ainda assim, Mussa confessa que não sabe falar o árabe e ainda tem dificuldades em compreender por completo as frases presentes nos poemas. A tradução, portanto, é excessivamente presa ao sentido, o que tira, é verdade, um pouco do brilho dos poemas. Mas devemos reconhecer que o esforço de Mussa foi considerável e o resultado foi o melhor que ele pôde atingir. Embora seja visível que o tradutor tenha se apoiado no campo sintático-semântico, o texto não é ruim e as ótimas notas inseridas por Mussa nos ajuda a compreender os poemas e as circunstâncias de suas produções.

E isso nos leva aos poemas propriamente ditos… Eles fazem parte de um gênero peculiar aos árabes, denominada qaṣīda. Essa forma poética consiste em um sucessão constante de versos divididos por dois hemistíquios, com métrica e rima fixas. Além disso, a qaṣīda é composta por uma justaposição de temas e unidades separadas. Significa dizer que num mesmo poema há uma transição entre assuntos distintos. No que tange aos Poemas Suspensos, estudiosos identificam, de forma geral, três unidades nas peças (nesta ordem): (1) um lamento erótico/amoroso do poeta quando se depara com os restos do acampamento abandonado pela tribo da mulher amada; (2) uma viagem pelo deserto e a descrição da montaria (cavalo ou camela); e, por fim, (3) a mensagem principal do poema (invectiva, sátira, elogio), direcionada a um destinatário específico. Embora essa seja uma estrutura geral presente na maioria dos poemas, alguns não respeitam exatamente tais unidades temáticas. Todavia, mesmo nos poemas que seguem fielmente esse esqueleto de composição, a forma do poeta abortar cada um desses tópicos é bastante original.

Confesso que gostei mais de um do que de outros e achei particularmente interessante um dos poemas no qual o autor traçava, dado momento, noções vinculadas à efemeridade da vida (num ponto de vista um tanto diferente daquele que estou acostumada a ver no Budismo). O mais legal de tudo, porém, é que os textos são quase como uma viagem à Arábia antiga, e deixam marcado um frescor poético um tanto rude e por vezes brutal (como diz Mussa), mas inegavelmente sensível e verdadeiro. Uma leitura recomendadíssima!

Nota: 8.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: المعلقات (Al-Muʿallaqāt)
  • Autor: Diversos
  • Tradutor: Alberto Mussa
  • Edição brasileira: Record, 2006

Propagandas tailandesas

Hoje tenho um post um tanto diferente – o primeiro da categoria “e outras coisas mais” aludida no subtítulo. Propagandas tailandesas…

Me deparei com essas propagandas por acaso, quando assistia à vídeos no YouTube. Não costumo me interessar muito por peças publicitárias – mentira, adora os comerciais sem menor sentido dos japoneses -, mas senti curiosidade ao ver o título do vídeo, algo como “comovente propaganda tailandesa”. Fui assistir e, uau, era comovente mesmo! Depois do primeiro filmete, acabei procurando por outros e resolvi compartilhar meus achados aqui, pois considero as mensagens muito bonitas.

Antes, um comentário: é interessante a forma utilizada para promover os produtos, já que o enredo do vídeo parece receber uma atenção maior que o próprio produto. Nesse primeiro vídeo, por exemplo, só depois de uma pesquisa no Google que pude descobrir que a empresa promovida presta serviços de comunicação. Ah! Já vou adiantando que sou coração de manteiga e chorei em vários desses vídeos, então esteja devidamente alertado caso seja uma pessoa emotiva como eu. Prepare a caixinha de lenços de papel e vamos lá!

No segundo vídeo, fica mais evidente qual a marca promovida. Perde muito da sutileza do primeiro, mas ainda assim considero uma boa peça.

Por fim, deixo uma série de comerciais de empresas de seguro. Uns são melhores, outros piores… Uns mais tristes, outros mais leves… A despeito disso, considero-os suficientemente bonitos para figurarem aqui.