Há Quem Prefira Urtigas

Há Quem Prefira Urtigas [Capa]

Quando li um livro do Tanizaki Jun’ichirō pela primeira vez, tive um choque. Até aquele momento todas minhas experiências com romances japoneses me apresentavam um mundo e uma mentalidade, digamos, “fechada”. Eram sempre personagens que se comportavam de acordo com o que é esperado da “face exterior” de um japonês. É verdade que aqui ou ali até podíamos enxergar o lado de dentro desses personagens e é igualmente verdadeiro que muitas vezes o “desnudar” desse lado que o japonês tem de manter oculto da sociedade era justamente o objetivo dos escritores. Todavia, todos caminhavam em direção a esse objetivo de forma bastante sutil. Com Tanizaki, no entanto, foi diferente, pois ele optara por uma abordagem mais direta, forte e sem rodeios. Imaginem, em plena década de 1920, um escritor oriundo de uma sociedade na qual o sexismo imperava (por sinal, até hoje ainda é bem forte) escrever a respeito de uma relação extraconjugal entre duas mulheres! Conforme fui lendo outros livros do autor, percebi que aquele tipo de abordagem se repetia quase sempre. Desnecessário dizer que um escritor competente como Tanizaki não escolheria esse caminho apenas para chocar. Há objetivos por trás dessa opção, mas não entrarei no mérito da questão, até porque hoje quero falar de uma de suas obras mais leves, quiçá a menos chocante delas.

Há Que Prefira Urtigas é a história de um casamento que, depois de alguns anos, só existe formalmente. Kaname e Misako já não têm atração um pelo outro e, portanto, um relacionamento real entre os dois já não é mais possível. A despeito de o casal ter percebido isso e até já terem se decidido pelo divórcio, nenhum dos dois toma o passo decisivo para o rompimento. Muitas coisas entram na conta: como o filho de dez anos lidaria com a separação, a posição dos dois perante a sociedade, as opiniões do sogro de Kaname, etc. A separação, todavia, é inevitável. Misako, por exemplo, já se relaciona com outro homem, caso não só sabido como apoiado por Kaname. Diferentemente de várias outras histórias do Tanizaki, essa é narrada em terceira pessoa e tudo leva a crer que não há espaços para manipulações na narração. Todos os personagens parecem ser expostos de maneira bastante honesta… Embora em terceira pessoa, contudo, a focalização frequentemente está em Kaname, personagem que funciona como um fio-condutor da obra. Bem, talvez não tanto condutor, pois ele é hesitante, indeciso, difuso, covarde até, eu diria. Não é tão difícil se irritar com ele vez ou outra. Isso, entretanto, não é um ponto negativo, pois faz sentido para o enredo esse perfil psicológico do protagonista.

Não é raro encontrarmos elementos que levantam dicotomias (muitas vezes suscitadas pelas personagens femininas da obra, embora não só por elas): Ocidente x Oriente, tradicional x moderno, velho x novo… Não me parece, porém, que Tanizaki pretendesse “escolher” um desses lados, como alguns críticos costumam sugerir. Para mim, o autor localiza a obra numa zona cinzenta intermediária entre os dois polos, tendo em Kaname o grande expoente desse aspecto de indefinição, talvez até uma metáfora do próprio Japão daqueles anos (década de 1920). Julgo Há Que Prefira Urtigas obra fundamental para todos que querem compreender um pouco mais do Japão.

Nota: 8.5 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 蓼喰ふ蟲 [蓼食う虫] (Tade kū mushi)
  • Autor: Tanizaki Jun’ichirō (谷崎润一郎)
  • Tradutora: Leiko Gotoda (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Companhia das Letras, 2003
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