Em Louvor da Sombra

Em Louvor da Sombra [Capa]

Promessa feita, promessa cumprida! Depois de o Japão aparecer pela primeira vez aqui no blog no meu último texto, ele volta agora numa “trilogia”. Entre aspas, pois, na realidade, os três livros que aparecerão em sequência por aqui, embora do mesmo autor – o genial Tanizaki Jun’ichirō –, não têm entre si conexão lógica, ainda que, claro, possam dialogar aqui ou ali… No caso específico da obra que lhes trago hoje, sendo franco, talvez fosse até mais correto dizer que todos os outros livros do autor estabeleçam um diálogo considerável com este daqui.

Em Louvor da Sombra não é um romance, nem uma novela, muito menos um conto. Tampouco um livro de poesias. É um ensaio… Sim! Um ensaio! Isso por si só já basta para criar a atmosfera de uma obra imponente e somando-se ao fato de que ela versa a respeito da cultura japonesa (assunto inegavelmente bastante complexo), temos pronta a imagem de um livro extenso, intricado e complicadíssimo, certo? Errado! Em Louvor da Sombra é uma obra de apenas sessenta e poucas páginas, escrita numa linguagem notadamente simples e num tom tão leve que faz até parecer que o autor está numa conversa descompromissada com seus leitores. Para terem a ideia do que digo, há dado trecho do livro que o autor descreve com detalhes a receita de um prato da culinária japonesa que ele julga ser um daqueles autênticos representantes da alma japonesa. A despeito dessa forma amena de o autor abordar o assunto, entretanto, o conteúdo é de grande qualidade.

É evidente que um livro com essas características não pode nunca almejar ser compêndio de coisa alguma, ainda mais quando se trata de um assunto espinhoso. Em Louvor da Sombra, no entanto, entrega o que propõe, isto é, uma visão estética da cultura nipônica vista pelo olhar agudo de Tanizaki, mas que em momento algum pretende ser mais do que isso: a apreensão do autor a respeito de seu objeto. Só que, embora seja apenas a visão particular de um homem, a perspicácia de Tanizaki para perceber detalhes, que de tão óbvios são dificílimos de intuir, é digna de nota, como também é admirável a capacidade de sintetizar tudo isso num título. Nesse caso em específico sem precisar me importar com o pudor de não revelar detalhes da obra, pois de um ensaio não se espera as surpresas de um roteiro de romance, posso dizer que a grande sacada de Tanizaki foi justamente notar que o traço que difere os japoneses é o apego pelas sombras. Isso os contraporia aos ocidentais que, segundo o autor, buscam em todos os aspectos de suas vidas a luminosidade. O “louvor” às sombras, portanto, legariam aos japoneses uma visão peculiar das coisas e, em última instância, uma maneira distinta de encarar a vida. Para Tanizaki essa diferença de olhares se manifestaria desde a forma dos banheiros, passando pela arquitetura e chegando até mesmo à cor da pele. Em suma, se para os ocidentais a falta de luz oprimiria, para os japoneses estesiaria.

O ensaio de Tanizaki é curto é fácil de ler, por um lado, mas propõe uma estética muito bem pensada, por outro. Isso por si só já bastaria para endossar a leitura do livro, porém, se adicionarmos a perspectiva que o jogo de luz e sombra leva até às outras obras de Tanizaki – especialmente talvez na construção de seus personagens –, faz com que a leitura de Em Louvor da Sombra seja quase obrigatória para qualquer um interessado na literatura japonesa.

Nota: 9.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 陰翳礼讃 (In’ei raisan)
  • Autor: Tanizaki Jun’ichirō (谷崎润一郎)
  • Tradutora: Leiko Gotoda (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Companhia das Letras, 2007
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