Os Poemas Suspensos [Al-Muʿallaqāt]

Os Poemas Suspensos

Passei anos da minha vida detestando poesias. Lembro-me, por exemplo, como era um suplício as partes que continham cantos n’O Senhor dos Anéis quando li a trilogia no início da minha adolescência. Encarar Gregório de Matos, Gonçalves Dias, Manoel Bandeira, entre outros, nas aulas de literatura do colégio, então, nem se fala… Minha opinião a respeito só começou a se alterar muitos anos mais tarde, após ter tido a possibilidade de acompanhar uma disciplina ministrada por um professor que, além de muitíssimo competente, claramente amava o que fazia. Depois dessa experiência, além de mais maduro e ciente das “ferramentas” necessárias para se fruir a arte poética, passei a compreender melhor o que de fato seria a poesia e, assim, pude, pela primeira vez na minha vida, começar a “entendê-la” em sua essência. Voltei a alguns daqueles autores que me atormentavam e, hoje, sou apreciador de vário deles. Mas o tema do blog é o Oriente, logo não é nenhuma surpresa que seja de lá o texto que trago para esse espaço hoje.

Os Poemas Suspensos (ou Al-Muʿallaqāt no original em árabe) é um conjunto de dez poemas longos, oriundos da Arábia pré-islâmica. Pretensamente a obra-prima dos dez maiores poetas do mundo árabe antigo. A bem da verdade, esse número “dez” é um tanto controverso, pois há quem defenda números um pouco distintos (por exemplo, há compiladores que sugerem sete poemas e, consequentemente, sete poetas). E, sejamos francos, os próprios poemas estão envoltos numa atmosfera um tanto polêmica, visto que chegaram até nós a partir do trabalho executado por compiladores muçulmanos que podem muito bem terem feito uma seleção enviesada ou, pior ainda, falsificado lá ou cá os poemas, no afã de estabelecerem uma oposição entre as “trevas” de mundo pré-islâmico e a “luz” trazida pela nova religião. Polêmicas à parte, vamos nos afundar um pouco mais no texto.

Comecemos pela tradução. Qualquer um que já se aventurou no exercício de traduzir alguma coisa sabe que a tarefa é ingrata. Imagine, então, traduzir um texto antigo de uma cultura consideravelmente diferente da nossa… Esse desafio foi autoimposto pelo escritor carioca Alberto Mussa (autor de, por exemplo, O enigma de Qaf, romance do qual pretendo compartilhar minhas impressões aqui no blog assim que possível). Conta o tradutor que ficou apaixonado pelos poemas “suspensos” no exato momento que pôs os olhos em alguns de seus fragmentos, contidos numa antologia francesa de poesia árabe. A partir daquele momento resolveu traduzi-los para o português. Acontece que Mussa não conhecia árabe, mas sabia que muito se perderia se traduzisse de uma versão do francês ou do inglês. Logo, resolveu aprender o idioma, empresa que lhe ocupou quatro anos. Ainda assim, Mussa confessa que não sabe falar o árabe e ainda tem dificuldades em compreender por completo as frases presentes nos poemas. A tradução, portanto, é excessivamente presa ao sentido, o que tira, é verdade, um pouco do brilho dos poemas. Mas devemos reconhecer que o esforço de Mussa foi considerável e o resultado foi o melhor que ele pôde atingir. Embora seja visível que o tradutor tenha se apoiado no campo sintático-semântico, o texto não é ruim e as ótimas notas inseridas por Mussa nos ajuda a compreender os poemas e as circunstâncias de suas produções.

E isso nos leva aos poemas propriamente ditos… Eles fazem parte de um gênero peculiar aos árabes, denominada qaṣīda. Essa forma poética consiste em um sucessão constante de versos divididos por dois hemistíquios, com métrica e rima fixas. Além disso, a qaṣīda é composta por uma justaposição de temas e unidades separadas. Significa dizer que num mesmo poema há uma transição entre assuntos distintos. No que tange aos Poemas Suspensos, estudiosos identificam, de forma geral, três unidades nas peças (nesta ordem): (1) um lamento erótico/amoroso do poeta quando se depara com os restos do acampamento abandonado pela tribo da mulher amada; (2) uma viagem pelo deserto e a descrição da montaria (cavalo ou camela); e, por fim, (3) a mensagem principal do poema (invectiva, sátira, elogio), direcionada a um destinatário específico. Embora essa seja uma estrutura geral presente na maioria dos poemas, alguns não respeitam exatamente tais unidades temáticas. Todavia, mesmo nos poemas que seguem fielmente esse esqueleto de composição, a forma do poeta abortar cada um desses tópicos é bastante original.

Confesso que gostei mais de um do que de outros e achei particularmente interessante um dos poemas no qual o autor traçava, dado momento, noções vinculadas à efemeridade da vida (num ponto de vista um tanto diferente daquele que estou acostumada a ver no Budismo). O mais legal de tudo, porém, é que os textos são quase como uma viagem à Arábia antiga, e deixam marcado um frescor poético um tanto rude e por vezes brutal (como diz Mussa), mas inegavelmente sensível e verdadeiro. Uma leitura recomendadíssima!

Nota: 8.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: المعلقات (Al-Muʿallaqāt)
  • Autor: Diversos
  • Tradutor: Alberto Mussa
  • Edição brasileira: Record, 2006
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