Um milionário em Lisboa

Um milionário em Lisboa

Alguns meses atrás, eu publiquei aqui as minhas impressões sobre “O Homem de Constantinopla”, primeira parte do romance biográfico sobre Calouste Gulbenkian, o armênio que marcou no seu nome na história do petróleo, e prometi voltar com um texto sobre a segunda parte dessa história. Cá estou para cumprir o combinado e, em linhas gerais, comentar “Um Milionário em Lisboa”, também publicada pela editora portuguesa Gradiva.

A segunda parte do romance escrito pelo jornalista português José Rodrigues dos Santos começa com o velho recurso de início pelo fim, para depois deixá-lo de canto enquanto a história preenche a lacuna deixada na narrativa, até que as últimas páginas do livro encontrem as primeiras. Após o flash-forward, a história retorna para onde ela parou na primeira parte: a busca de Krikor, filho do milionário Kaloust Sarkisian, por sua “amada” que havia voltado para o Império Otomano após uma temporada na Europa, onde se conheceram. Ir e vir da Europa para o interior otomano não seria lá um grande desafio para o filho de um dos homens mais ricos do mundo nos anos 1910, se isso não acontecesse durante a Grande Guerra, quando o governo otomano ocupado pelos Jovens Turcos iniciou um processo sistemático de extermínio dos armênios do Império, o que ficou conhecido como genocídio armênio.

Assim, a primeira parte da obra se passa com o jovem Krikor na cidade de Kayseri, em companhia de sua noiva, de onde são deportados rumo aos desertos da Mesopotâmia juntamente com toda a população armênia da região. Páginas e mais páginas são gastas com os pormenores da deportação e do sofrimento dos armênios que compunham a caravana, bem como com as estratégias de sobrevivência ante os desafios do deserto e dos assaltos de bandos armados que, frequentemente, se lançavam sobre os deportados a fim de obter algum bem que eles carregavam e, por ventura, mulheres e crianças que passariam a viver no interior de famílias curdas ou turcas. Ainda que romanceado, os relatos possuem lastro histórico, não sendo tão discrepantes daqueles narrados por observadores da época e exaustivamente trabalhos pela historiografia do genocídio. Contudo, não possuem o mesmo realismo da narrativa de Mark T. Mustian em Gendarme.

Com Krikor no Império Otomano e Kaloust na Europa, os capítulos são alternados entre os dois personagens. Enquanto o filho passa por todo o tipo de privações no Oriente, o pai busca-o incessantemente por meio de contatos na burocracia otomana, enquanto toca seus negócios a partir de Londres. Novamente – como aconteceu em “O Homem de Constantinopla” – a narrativa dos bastidores das negociações milionárias e, muitas vezes, pouco honrosas, da negociação de petróleo no começo do século XX são mais atraentes ao leitor do que o romance de Krikor e a sua luta para sobreviver ao genocídio. Nada muito surpreendente, tendo em vista que é Calouste Gulbenkian, ou melhor, Sarkisian, o personagem principal de ambos os livros. Por isso, não se sinta culpado(a) se as artimanhas do velho Sarkisian para otimizar seus lucros nas negociatas do petróleo te prenderem mais do que a saga de seu filho durante a perseguição promovida pelo governo otomano. O culpado é o autor, que inseriu o massacre de um milhão de armênios a partir de 1915 como pano de fundo de uma biografia que tem pouca relação com o genocídio, numa tentativa de cativar o leitor evocando o sofrimento de um povo em um momento em que a luta pelo reconhecimento desse crime contra a humanidade ganha mais espaço e atenção no cenário mundial, com a proximidade do centenário de seu início – 1915-2015. Contudo, ainda que soe um pouco forçada a inserção do genocídio no romance, não se pode dizer que dos Santos não tenha mergulhado em pesquisa histórica para compor essa passagem. Referências às lideranças otomanas como Mehmet Talaat Paxá, arquiteto do genocídio, ou à guinada nacionalista turca da década de 1910, com o abandono do otomanismo pelo turquismo são dignas de nota. Porém, ao contrário do que fizeram Mark Mustian (Gendarme) e Edgar Hilsenrath (The story of the last thought), Santos não consegue evitar a queda em lugares-comuns como descrever a morte, abandono ou venda de crianças pelas próprias mães durante as deportações genocidas, recurso comum em novelas que buscam popularidade.

Como disse, o ponto forte do livro é a astuta figura de Kaloust Sarkisian e suas estratégias para sobreviver no arriscado ramo petrolífero no agitado século XX. São especialmente divertidas as passagens que o protagonista consegue dar um nó em raposas velhas do petróleo, driblar as autoridades nazistas na França ocupada e desestabilizar figuras do porte de Winston Churchill ou Salazar.

Exageros poéticos a parte – e talvez o maior desses exageros seja as passagens carregadas de tinta ufanista sobre Portugal, país para o qual Sarkisian/Gulbenkian se mudou em busca de tranquilidade fiscal e administrativa para seus negócios – Um milionário em Lisboa é um bom livro e, sobretudo, um bom desfecho para O homem de Constantinopla. Reitero os votos que fiz há seis meses, quando publiquei a resenha da primeira parte da história, para que ambos os títulos sejam publicados no Brasil em breve e, assim, ajude a criar mais interesse no leitor brasileiro sobre o povo armênio, o Império Otomano e sobre uma das principais figuras que viveram em Portugal no século passado, cujos desdobramentos presenciamos até hoje.

Nota: 7.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Autor: José Rodrigues dos Santos
  • Edição (Portugal): Gradiva, 2013

O Ato de Matar [2012]

The Act of Killing

Devastador. Esse é o melhor adjetivo para definir “The Act of Killing“, documentário do cineasta norte-americano, radicado na Dinamarca, Joshua Oppenheimer, indicado ao Oscar de melhor documentário em 2013.

O filme nos leva à distante Indonésia, arquipélago pouco conhecido da maioria de nós (ou ao menos daqueles que não se ligam nos programas de viagens e esportes radicais da TV fechada), mas que é um dos países mais populosos do mundo e o maior país islâmico da Terra. A localização geográfica privilegiada fez com que as potências mundiais a partir do século XVI disputassem o controle das suas mais de 14 mil ilhas, até que, findada a II Guerra Mundial, liderados por Sukarno, os indonésios conseguem a sua independência, repelindo o domínio japonês e a antiquíssima exploração holandesa.

Com a independência, alguns partidos políticos pipocaram na cena política da Indonésia, dentre eles o Partido Comunista Indonésio (PKI, na sigla no idioma local), que em pouco tempo se tornou o maior partido comunista fora do chamado “socialismo real” (MARGOLIN, 1997, p. 271). A crescente influência dos comunistas que pleiteavam os cargos mais altos do governo Sukarno preocupava outras forças políticas do país, que aproveitaram um obscuro golpe militar em 30 de setembro de 1965 para culpar os comunistas por tentarem desestabilizar o país. Desse golpe, emergiu a figura do general Suharto (não confundir com Sukarno), que gradualmente foi ganhando mais poder até depor seu antecessor, proibir o PKI e governar a Indonésia de maneira autoritária (CHALK & JONASSOHN, 2010, p. 487).

Suharto e sua cúpula aproveitaram a instabilidade política para declarar que os comunistas eram os culpados pela crise que o país enfrentava. Em plena Guerra Fria, esse discurso, associado à imagem dos comunistas como ateus famigerados em um país predominantemente islâmico, foi o catalisador de um processo genocidário de maior amplitude do século XX. Em poucos meses – ou semanas – estimam-se que cerca de meio milhão de pessoas morreram, sem contar outras 500 mil que foram presas. Os números são de difícil verificação, pois as estimativas oficiais são provavelmente subestimadas – algo em torno de 80 mil – enquanto as cifras fornecidas pelos próprios perpetradores são inflacionadas a fim de provocar júbilo de seus “elevados feitos” a serviço da nação ao exterminar comunistas (MARGOLIN, 1997, p. 281).

É justamente a permanência do sentimento do perpetrador de que nada de errado aconteceu durante os anos 1960 na Indonésia que Joshua Oppenheimer retrata nesse documentário – que pode ser visto tanto na versão “cortada”, com 1:56h, ou na versão do diretor, que eu vivamente recomendo, com 2:39h – que é difícil de assistir numa sentada só, tamanha a dureza da realidade retratada.

Trailer

A ideia surgiu após Oppenheimer realizar um projeto com uma comunidade agrícola de uma das muitas ilhas do país. Lá, o diretor teve contato com uma tensão presente entre os habitantes e trabalhadores e forças paramilitares, avalizadas pelo Estado, que controlam determinadas cidades e regiões, frutos do golpe de Estado. Alguns anos mais tarde, Oppenheimer decidiu voltar ao país para fazer um documentário sobre esses “donos do poder” e como eles lidam com o passado de massacres e repressão que eles mesmos instauraram, administraram e ainda perpetuam na Indonésia contemporânea.

Logo no início do filme somos apresentados a Anwar Congo, um simpático e vaidoso idoso que demonstra para a câmera de Oppenheimer como ele matou mais de mil “comunistas” nos anos 1960 com a ajuda de um arame, método inspirado nos filmes de gângsteres norte-americanos – que, ao lado das películas de faroeste, são as preferidas de Congo e sua gangue – o que proporcionaria uma morte mais rápida e limpa, evitando o sangue causado por lâminas e balas.

A estratégia do diretor para fazer com que os perpetradores falassem orgulhosamente sobre os seus atos do passado foi oferecê-los para que eles mesmos dirigissem, produzissem e atuassem num filme sobre a política genocida nos anos 1960. Ao lado de Anwar Congo, protagonista desse filme-álibi, está Herman, um membro da Juventude Pancasila – temido grupo paramilitar da região – e Adi, que proporciona um dos momentos mais impactantes do filme, ao dizer que tem plena consciência de que as mortes que causou nos anos 1960 foram frutos de propagandas mentirosas do governo contra comunistas, chineses e outros dissidentes e que a ele pouco importava as convenções internacionais que previam punição para seus crimes, pois, como “vencedor”, caberia a ele escrever as regras.

Outro momento que faz com que o espectador pense duas vezes em continuar a assistir o filme ou não é quando Anwar Congo e seus amigos são entrevistados num popular programa vespertino da TV local, onde são tratados como heróis e aplaudidos a cada vez que repetem como matavam os comunistas há alguns anos atrás. Isso mostra a não ruptura com o regime autoritário e genocida da Indonésia dos anos 1960 e seus sucessores continuam a ditar as regras no arquipélago asiático e por isso seus apoiadores não têm medo ao relatar seus feitos para as câmeras de um norte-americano, país este que eles veem como apoiadores dos massacres de 1965.

Em momentos como hoje, quando acadêmicos e observadores de direitos humanos discutem a estabilidade de países do sudeste asiático como Mianmar – ou Burma – e aqui mesmo no Brasil nós vemos – meio céticos, meio esperançosos – as atuações da Comissão Nacional da Verdade em relação aos crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura militar inaugurada em 1964, The Act of Killing é um golpe nos que acreditam que a História é irreversível, presa no tempo passado e que a melhor solução para os traumas é o tempo. Ingenuidade criminosa. O filme de Oppenheimer nos alerta, ao colocar uma lente de aumento sobre os perpetradores de um genocídio, para a importância de uma transição verdadeiramente democrática e comprometida em olhar para o passado disposto a devassá-lo, não a pretensas conciliações nacionais que escondem esqueletos nos armários e fadam as vítimas de regimes autoritários a viverem com medo e impotentes. Em tempo, Oppenheimer lançou recentemente em festivais europeus o irmão gêmeo de The Act of Killing. Intitulado The Look of Silence, a película dessa vez volta-se para os sobreviventes e suas famílias e cruza suas histórias e dores com os depoimentos dos perpetradores.

Mais do que um documentário doloroso sobre mortes em países exóticos e distantes por motivos pouco claros, The Act of Killing é uma contribuição valiosa ao campo dos Genocide Studies, ao propor analisar os perpetradores ao invés do grupo-alvo, dando a eles espaço para falarem de seus atos enquanto andam pelas ruas e avenidas de suas cidades, inocentes, livres e destemidos. É uma obra fílmica, mas se fosse uma tese de doutorado defendida em qualquer uma das grandes universidades do mundo, seria uma daquelas que marcaria a sua geração.

Para saber mais:

  1. CHALK, Frank & JONASSOHN, Kurt. Historia y sociología del genocidio: análisis y estudio de casos. Buenos Aires: Eduntref/Prometeo libros, 2010.
  2. MARGOLIN, Jean-Louis. Massacres asiáticos In: RICHARD, Guy (org.) A História Inumana: massacres e genocídios das origens aos nossos dias. Lisboa: Instituto Piaget, 1997.

Nota: 10 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: The Act of Killing
  • Ano de lançamento: 2012
  • Diretor: Joshua Oppenheimer, Christine Cynn (codiretor)

Meu amigo Totoro (1988)

Tonari no Totoro

Não deve ser surpresa para ninguém que a animação – e sua mídia irmã, os quadrinhos – é uma paixão dos japoneses e, também, uma arte que os nipônicos, desde idos dos anos 1960, têm desenvolvido e inovado reiteradas vezes (tanto no que tange aos aspectos técnicos, como no que concerne à linguagem em si). Se perguntarmos para um japonês quem ele considera o pai dos anime¹ (como os japoneses se referem à “animação”), muito possivelmente teremos como resposta Tezuka Osamu. Mas se a pergunta for “qual seu diretor do coração”, suspeito que obteríamos com certa frequência o nome de Miyazaki Hayao (Tezuka merece alguns textos e certamente aparecerá aqui futuramente).

Miyazaki, junto de Takahata Isao e Suzuki Yoshio, é um dos fundadores do Studio Ghibli, uma das principais empresas de animação do Japão. Inaugurada em 1985, a companhia é tão bem sucedida que entre as quinze animações japonesas de maior bilheteria, 8 foram feitas pelo Ghibli. O nome do estúdio é curioso: Ghibli é uma palavra árabe que nomeia um vento quente que sopra do Saara em direção ao Mediterrâneo (por aqui chamamos esse vento de Siroco). Durante a Segunda Guerra Mundial, entretanto, essa palavra foi usada no nome de um avião de reconhecimento italiano: o Caproni Ca.309 Ghibli. Miyazaki, um entusiasta de aeronaves, escolheu essa palavra para nomear a companhia que estava criando, pois queria que a mesma representasse um sopro “quente” na indústria da animação do Japão.

Tonari no Totoro (“Meu amigo Totoro” na tradução brasileira) não é o primeiro filme do estúdio, tampouco o mais famoso internacionalmente. A despeito disso, a animação foi, desde pouco depois de seu lançamento em 1988, um enorme sucesso no Japão, marcando de forma indelével a história da companhia. A identificação de Totoro com o Ghibli é tão grande que a criatura grandalhona até passou a fazer parte da logomarca da empresa (na verdade, aparecem três “Totoro” no filme; sendo que dois deles estão na logomarca; o grandão e o pequeno).

Logo Studio Ghibli

Logomarca do estúdio

Escrito e dirigido por Miyazaki, Meu amigo Totoro já apresenta todo o esplendor fantástico, misturado com a representação aguçada da infância, aspectos sempre muito bem trabalhados pelo diretor. O enredo acompanha pai e filhas da família Kusakabe que se mudam para um subúrbio rural de Tóquio, ficando, assim, mais próximos da mãe que está internada em um hospital, se recuperando de uma doença (tuberculose, embora só implícito). Logo de cara, as duas pequenas, ao ingressarem pela primeira vez na nova casa, passam por um túnel de árvores e, a partir daí, entram em contato com o fantástico, como se a entrada da nova residência fosse uma espécie de símbolo da passagem entre o profano e o sagrado. Essa estratégia é repetida no filme, com a imagem da passagem pelo “túnel” funcionando como um intermediador entre as duas esferas (a bem da verdade, Miyazaki parece gostar dessa imagem, visto que ela é reiterada em outras de suas obras).

Aqui vale uma observação: não seria um pouco exagero conectar “fantástico” e “sagrado”? Não digo que para todas as ocorrências será esta resposta, mas no caso do Japão e especificamente em relação ao Meu amigo Totoro, creio que a conexão entre os dois seja bastante plausível. Sem alongar muito, explico: o povo japonês ainda hoje tem fortes ligações com o mundo natural e isso influencia na forma como eles percebem o sagrado. Mesmo após a entrada do Budismo no arquipélago, essa forma de se apreender o sobrenatural (que começou a ser sistematizada no século VI com o nome de xintoísmo [shintō, 神道]) permaneceu presente como uma das camadas de “compreensão” religiosa dos japoneses. Ora, a partir disso representar o sagrado como figuras fantásticas oriundas da natureza não é nada absurdo.

Trailer

Digressões à parte, a nova residência da família Kusakabe parece estar pululada de criaturas fantásticas, algo que atrai consideravelmente as duas irmãs: Satsuki e Mei. A propósito, é realmente incrível como Miyazaki sabe retratar bem crianças: o comportamento das duas é muito convincente como, por exemplo, quando a pequena Mei imita tudo que a irmã mais velha faz. Das criaturas fantásticas, decerto as mais interessantes são os “Totoro”. Encontrados pela Mei, quando a menina explorava o jardim da casa, os “Totoro” funcionam como os kami (神) do xintoísmo (espécie de espíritos da natureza… lembram-se do que eu falei da interpolação entre “mundo natural” e “sagrado”?) e vivem numa enorme árvore ali por perto. A árvore, todavia, não é qualquer: ela é um yorishiro, um objeto transformado através de rituais numa morada de um kami, o que reforça a minha leitura da conexão entre “fantástico” e “sagrado” na obra (sabemos que a árvore é um yorishiro por causa da corda amarrada em volta dela). A partir disso, o filme vai se desenrolar explorando a relação entre as duas meninas e os “Totoro” (em especial o grandalhão) e, concomitantemente, o desenvolvimento da doença da mãe.

Embora seja feita para um público infantil, Meu amigo Totoro é uma animação extremamente bem produzida e dirigida, capaz agradar também um público adulto, especialmente por sua atmosfera, nas palavras de Miyazaki, “serena, tranquila e inocente”. Destaca-se sobremaneira o universo fantástico da obra – uma mistura bem dosada das tradições japonesas com criações da mente inventiva de Miyazaki – que pode seduzir qualquer um que queira decifrar um pouco das inspirações do autor. Se uma criança vai se encantar com a arte e com a história, um adulto pode muito bem se instigar com aquilo que fica implícito: o túnel como passagem entre “mundos”; o fantástico que só é visível para as crianças; o explorar do universo sagrado… Enfim, uma excelente pedida para todos!

Nota: 9.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: となりのトトロ (Tonari no Totoro)
  • Ano de lançamento: 1988
  • Diretor: Miyazaki Hayao

Notas:

  1. Abreviação da palavra アニメーション (animēshon), oriunda do inglês “animation”. Vale lembrar que na língua japonesa, ao contrário do que ocorre em determinadas variantes do português brasileiro, palavras terminadas em “e” ou “o” cujas sílabas finais não são tônicas, não sofrem uma alteração vocálica na fala para, respectivamente, “i” e “u”. Isto é, embora “carro” seja escrito com “o”, é comumente pronunciado como “carru” aqui no Brasil. Tal fenômeno não ocorre no japonês e, portanto, a pronúncia mais próxima da palavra アニメ (anime), seria “animê” (e não “animi”). Voltar

Oldboy – Dias de Vingança (remake) [2013]

Capa - Oldboy [2013]

Não é surpresa para ninguém que Hollywood adora fazer versões de filmes internacionais de sucesso, seja de crítica ou de público. Também não é novidade que muitas dessas versões são bastante aquém das originais (para não dizer a imensa maioria). Uma, no entanto, me despertou o interesse desde seu anúncio e por dois motivos muito simples: seria uma refilmagem do excelente Oldboy (veja meu texto sobre ele aqui) e seria dirigida por Spike Lee, um diretor talentoso, um tanto polêmico e bastante engajado em causas políticas, especialmente àquelas vinculadas ao movimento negro. Parecia-me, portanto, que tê-lo no comando poderia adicionar ao filme elementos novos e estimulantes e, desse modo, tornar a obra hollywoodiana não uma mera repetição de sua contraparte oriental, mas um filme que pudesse “andar com suas próprias pernas”.

Trailer

Após alguns meses de seu lançamento e da frustração de não conseguir ir ao cinema, enfim consegui assisti-lo… E o filme começa bem, com um Josh Brolin muito competente em caracterizar um personagem inescrupuloso. Só que, conforme o filme ia avançando, para a minha apreensão, nada de novo surgia. Onde estariam os toques revigorantes que eu esperava de Lee? Não existem! Não existem em absoluto! Talvez uma violência gráfica um pouco maior, mas morre por aí… E pior que isso, o remake não só não trás nada de novo, como consegue adicionar cá ou lá algum problema inexistente na obra original. Ora, o mínimo que se espera de uma obra adaptada é que tenha um roteiro redondo, afinal parte de toda uma gama de experiências, erros e acertos da versão original e, portanto, navega por mares já navegados. Falhas nessas circunstâncias são muito mais graves e o filme de Lee tem algumas delas. A principal, a meu ver, é o final. Spike Lee optou por alterar o desenlace original. Não acho isso necessariamente ruim, desde que se tivesse trocado por um final tão impactante quanto o da obra de origem. Mas não foi o que aconteceu… Pelo contrário, o desfecho é bem sem sal.

Enfim, eu até me diverti assistindo ao filme, mas não fiquei aturdido como quando vi o filme coreano. Fosse uma obra original, o filme de Lee poderia ter sido melhor recebido, mas sendo uma refilmagem e apresentando falhas inexistentes no longa que serviu como base, é inevitável avaliá-lo de forma muito mais rigorosa. E, nesse caso, o que sobra é isso mesmo: um filme apenas “ok”.

Nota: 6.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: Oldboy
  • Ano de lançamento: 2013
  • Diretor: Spike Lee
  • Elenco: Josh Brolin, Elizabeth Olsen, Sharlto Copley, Samuel L. Jackson, Michael Imperioli

Raven – 345 S

Raven - 345 S

Hrair Raven Tanielian é uma daquelas pessoas magnéticas que atraem a atenção de todos no ambiente. Eu o conheci em abril deste ano em Ann Arbor (um subúrbio de Detroit) durante um jantar de confraternização dos participantes de um workshop promovido pela universidade local. Enquanto comiam e bebiam, as pessoas se espalhavam pelos cantos da sala de estar da casa da anfitriã e conversavam sobre diversos temas até que, aos poucos, iam deixando o ambiente rumo à cozinha. Intrigado, fui investigar o que se passava e me deparei com uma figura simpática de meia idade, cabelos grisalhos, tatuado e com um estilo rock and roll contando histórias, enquanto fazia performances teatrais para ilustrar os casos que narrava – todos engraçadíssimos, que ele jurava que ele mesmo havia presenciado. Era Hrair. Em pouco tempo, ele se tornou a festa.

Com o avançar da hora as pessoas começaram a ir embora e algumas poucas inconvenientes (eu entre elas) permaneceram, o que permitiu que todos nós nos conhecêssemos melhor. Assim confirmei as minhas suspeitas que Hrair – um armênio-libanês que após anos na Europa se radicou nos EUA – era um artista, um músico mais especificamente, que havia criado um projeto denominado Raven cujo resultado foi a gravação de um álbum, 345 S, em 2008.

A arte na capa do CD é intrigante: uma asa negra, em referência ao título, Raven (corvo, em inglês). Mas ao abrir o encarte, a asa encontra seu par grudados ao corpo de uma mulher nua sob uma forte luz que a torna amórfica, mas com os olhos, boca e cabelos realçados em preto. O detalhe é que a foto foi produzida “artesanalmente”. As asas da modelo foram feitas com grandes penas e galhos por uma artista plástica, dando autenticidade (e alguma excentricidade) ao trabalho.

Mas não há autenticidade maior do que no som do Raven 345 S. Misturando elementos indígenas norte-americanos, com algo de rock progressivo e música do Oriente Médio e Armênia (afinal, este é um blog sobre a arte e cultura do Oriente e é por isso que essa resenha foi escrita para este espaço), a primeira audição do álbum é uma experiência intrigante.

A faixa que abre o álbum é intitulada MCMXV (1915, em algarismos romanos) e faz alusão ao ano que inaugurou a sistemática perseguição aos armênios do Império Otomano no que ficou conhecido como o genocídio armênio (1915-1923). A canção mistura orações e frases em armênio com linhas de guitarra compostas a moda dos instrumentos de corda do Oriente Médio. A mescla entre Oriente e Ocidente continua na faixa seguinte, Tribe after Tribe, quando a típica melodia dos instrumentos de sopro da Armênia – como o duduk – é reconstituída por meio da flauta indígena norte-americana, fabricada artesanalmente, acompanhada por linhas de contrabaixo e percussão. The Red Sand tem uma pegada bem progressiva que irá agradar os fãs do gênero. Em tom menos melancólico do que a MCMXV, o impacto da língua armênia retorna na belíssima The Walk Beyond. Mas, sem dúvida, o clímax do álbum está na penúltima faixa – Raven in the storm – na qual os riffs e solos de guitarra hipnotizam quem ouve. Na faixa final – que é geminada com um bonus track remixado – Children of the Last Forest, a percussão frenética associada com sólidas linhas de contrabaixo e guitarra e a onipresente flauta nativa garantem a qualidade desta grande experiência musical.

Ouça abaixo a faixa-título:

Nota: 10 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Ano de lançamento: 2008

Oldboy [2003]

Oldboy [2003]

Seu dia começou mal. É aniversário de quatro anos da sua filha, mas você está retido numa delegacia de polícia, completamente embriagado. Por fim, depois da ajuda de um amigo, consegue ser liberado para enfim poder voltar para casa e rever esposa e filha. Porém algo acontece e você acorda num quarto estranho, hermeticamente fechado, sendo que seu único contato com o mundo externo é um televisor. Você não faz ideia de como chegou ali, nem do porquê de ter sido trancafiado naquele lugar, de quem o capturou, muito menos de quando sairá. Sua vida é decidida nas minúcias por outrem: escolhem quando você vai dormir, o que vai comer, quando irá cortar o cabelo… tudo. Você é constantemente dopado, vive tendo alucinações e não tem nem mesmo o direito a se matar, por QUINZE ANOS! Esse é o pano de fundo Oldboy, filme coreano dirigido por Park Chan-wook. Vencedor do Grand Prix e indicado à Palma de Ouro do aclamado Festival de Filmes de Cannes em 2004 e premiado em diversos outros cantos do mundo, Oldboy é o segundo filme da “Trilogia da Vingança”, – filmes dirigidos por Park que, a despeito de não terem relação direta um com o outro, têm como mote a “vingança”.

Trailer

A trama de Oldboy, uma mistura de drama, thriller psicológico e criminal, é baseada numa série de mangás homônima, criada por Nobuaki Minegishi e Garon Tsuchiya (aos interessados, a obra está sendo lançado pela editora Nova Sampa), embora, claro, adaptações sejam necessárias para encaixá-la numa nova mídia. Para além das adaptações, todavia, o enredo funciona muito bem nas telonas. Desde o início do filme somos fisgados pelo fluxo de acontecimentos e ficamos ávidos para entender o que está acontecendo com Oh Dae-su, o pobre coitado do protagonista. E quanto mais tudo vai se esclarecendo, mais perplexos vamos ficando, até o desfecho – ah! o desfecho – que é surpreendente!

Se o argumento é sólido, contudo, o filme não se limite a ele. A direção de Park é bastante eficiente e a atuação de Choi Min-sik (que interpreta Oh Dae-su) convence, principalmente nas cenas em que ele está na clausura, momentos nos quais podemos sentir as perturbações psicológicas do personagem tanto pela caracterização incrível como pelas feições de Min-sik. Após a misteriosa libertação de Oh Dae-su, Oldboy muda de fase: sai a sensação de sufocamento e entra sentimentos de curiosidade e desforra. E aí Park fez as escolhas corretas. Primeiro soube dosar bem a velocidade com a qual as peças do quebra-cabeça vão sendo reveladas. Depois, não quis mostrar ao espectador cada pequeno avanço na trama, deixando a nosso cargo entender o que está se passando. Não digo que em algum momento as transições sejam obscuras… apenas sutis, evitando aquele sensação pasteurizada. Por fim, Park acertou em cheio no uso da trilha sonora, que muitas vezes parece estar em certa dissonância com a imagem, fato, todavia, que não cria estranhamento. Ao contrário, acaba gerando uma atmosfera apropriada para o desenvolvimento do filme.

Oldboy é um filme por vezes chocante, por outras opressor, mas de inegável senso artístico e capaz de nos prender do início ao fim. Um dos grandes filmes coreanos, sem dúvida.

Nota: 8.5 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 올드보이 (Oldeuboi)
  • Ano de lançamento: 2003
  • Diretor: Park Chan-wook
  • Elenco: Choi Min-sik, Yoo Ji-tae, Kang Hye-jung

O Homem de Constantinopla

O Homem de Constantinopla

Meses atrás, recebi da editora Gradiva de Portugal – por intermédio dos editores do Portal Estação Armênia – as belíssimas edições do romance biográfico de Calouste Gulbekian, businessman armênio que fez fortuna no começo do século XX, intermediando as negociações de petróleo dos campos de Baku e Mesopotâmia com as grandes corporações ocidentais. Pelos seus serviços, cobrava uma comissão de 5%, o que o levou a ser conhecido pela alcunha de “Mr. Five Percent”. Hoje, contudo, Gulbenkian é mais conhecido pela fundação que leva o seu nome do que pelos seus feitos como homem de negócios que o alçaram ao posto de um dos homens mais ricos de seu tempo.

A história de vida do excêntrico bilionário rendeu algumas biografias e muitas lendas ao longo dos anos, principalmente em Portugal, para onde se mudou em 1942 fugindo dos problemas causados pela II Guerra Mundial na França, e onde se encontra a Fundação, mundialmente conhecida, sobretudo, pelos que estudam História da Arte – uma das paixões de Gulbenkian era colecionar obras de arte – e procuram na entidade financiamento para pesquisas.

É justamente de Lisboa que vem os livros “O Homem de Constantinopla” e “Um Milionário em Lisboa”, títulos do romance escrito em dois volumes pelo jornalista português José Rodrigues dos Santos, célebre homem de letras em Portugal, mas pouco conhecido deste lado de cá do Atlântico. Fecundo escritor, dos Santos tem uma dúzia de romances publicados, além de ser doutor em Ciências da Comunicação, professor da Universidade Nova de Lisboa e colaborador de grandes veículos midiáticos como BBC e CNN. O currículo e o prestígio do autor o qualificaram para ser o homem a dar tintas de romance à biografia de um homem público, rico e muito influente. Uma tarefa dúbia: se a quantidade de informações ofertadas sobre Gulbenkian “facilitariam” o trabalho do escritor, certamente há vigilância em torno da memória do mecenas e homem de negócios cujos herdeiros têm interesse em preservar. Nas linhas a seguir, darei as minhas impressões sobre o primeiro volume dessa biografia, “O Homem de Constantinopla”.

Nessa obra, conhecemos Kaloust Sarkisian – nome do personagem que corresponde ao real Calouste Sarkis Gulbekian – que no leito de morte em Lisboa recebe a visita do filho, Krikor, para quem dirige as suas últimas palavras: “O que é a beleza?”. Angustiado para saber o significado dessa frase mezzo-Wilde, mezzo-Kundera, Krikor revira os pertences do recém-falecido pai a fim de descobrir a resposta para a indagação suspirada pelo homem moribundo, quando encontra cadernos manuscritos pelo patriarca nos quais havia rascunhado sua autobiografia, desde a infância na cidade otomana de Trabzon, onde nascera em 1869 e fora criado sob a rigidez de uma abastada família armênia, cuja riqueza era oriunda do comércio de tapetes e de cargos ocupados na burocracia otomana. Com o passar dos anos, o pai de Kaloust – Vahan – consegue, por meio de contatos escusos e obscuros no governo, uma licença do sultão para intermediar a importação de querosene de Baku e Batum e assim a família do interior se muda para a capital, Constantinopla, onde multiplicam a fortuna e matriculam o filho no Robert College (escola norte-americana que seria o embrião da conceituada Universidade do Bósforo).

O problema começa quando o esfacelamento das possessões otomanas nos Bálcãs leva o Império a uma crise sem precedentes e o sultão Abdul-Hamid II promove uma série de perseguições e massacres contra as minorias cristãs, principalmente os armênios. Em meio ao turbilhão político da última década do século XIX, a família ainda consegue fechar vantajosos negócios e manda o jovem Kaloust estudar Engenharia na Inglaterra, onde entra em contato com a sociedade europeia, com o mundo das artes, negócios e claro, sexo. Obcecado pela beleza, Kaloust visita galerias e exposições, conhece artistas e adquire pinturas para a sua contemplação. Ao mesmo tempo, preocupado com a velhice, se relaciona com adolescentes por “prescrição médica” na esperança que ao compartilhar a cama com jovens meninas o fizesse recuperar a vitalidade, numa típica manifestação da “síndrome de Dorian Gray”, velha conhecida dos psicanalistas e  porto seguro para os escritores. Em meio a negociações de petróleo, de contratos de exploração e de fornecimento para governos, verificamos a audácia e destreza de Kaloust para os negócios – talento que demonstra ter desde criança nos mercados de Constantinopla – em rodas de conversas com políticos e empresários baseados em figuras reais, o que prende a atenção e despertam o interesse do leitor.

Deixando o enredo de lado, cabe ressaltar que o livro é baseado em uma sólida pesquisa histórica, principalmente no que tange aos meandros da história do petróleo no primeiro quartel do século XX – da formação das grandes companhias como a Shell e dos bastidores das negociações de grandes contratos – quanto de fatos da vida de Gulbenkian, quero dizer, Sarkisian. De fato, um trabalho louvável.

No que tange à “questão oriental” e à “questão armênia”, a narrativa é menos convincente. Ainda que os acontecimentos relatados encontrem fundamentação historiográfica – merecem destaque as menções que o autor faz às ações dos partidos revolucionários armênios em busca de direitos no Império e à corrupção e patrimonialismo na burocracia otomana – a construção dos personagens é um tanto quanto óbvia. Desagrada-me particularmente a “consciência histórica” que os personagens demonstram ter acerca dos massacres e das perseguições que sofriam no Império, vitimizando-os em demasia. Uma estratégia narrativa bem diferente daquela de Franz Werfel – Os 40 Dias de Musa Dagh (Paz e Terra, 1995) – e Edgar Hilsenrath – do formidável The Story of the Last Thought (Scribners, 2000) – cujos personagens eram psicologicamente complexos e espelhavam o caos do Império Otomano da virada do século XIX para o XX, ao invés de serem oniscientes, como se a população média otomana tivesse total domínio das vicissitudes da política do Império e do sistema internacional. Passagens como esta são especialmente cansativas:

Na Europa falam em liberdade, igualdade e fraternidade e essas ideias estão a espalhar-se pelas nossas comunidades como fogo em erva seca. Queremos igualdade e queremos liberdade, mas os Turcos respondem com a espada. Graças a Deus as potências europeias, todas elas cristãs, têm-nos ajudado e feito guerra aos Turcos e exigindo protecção às minorias. (p. 53)

Por outro lado, esse tipo de narrativa torna a obra leve, de fácil leitura e assimilação e é perfeita para atingir grandes públicos que procuram livros “agradáveis” – palavra pouco adequada para definir obras que abordam, ainda que tangencialmente, o massacre de armênios – como aqueles que ficaram conhecidos nos EUA pelo rótulo de Airport Novels. Não por acaso o autor recebeu o selo “Escritores de confiança – 2013” da Seleções do Reader’s Digest, a mãe dos livros de aeroportos.

Devemos louvar, todavia, a coragem de José Rodrigues dos Santos, em devassar a vida do patriarca de uma das famílias mais influentes no mundo, abordando inclusive assuntos polêmicos como a pedofilia e as práticas comerciais, digamos, “não-ortodoxas”. Em tempos que as biografias no Brasil estão na mira de “guardiões da memória”, a ousadia de Santos pode nos ensinar como ser historicamente crível e, ao mesmo tempo, ético.

Para aqueles que desejam saber mais sobre a história dos armênios e um dos filhos mais ilustres desse povo, é um livro indispensável. Os que têm interesse em romances com narrativas que fogem da obviedade das tramas amorosas de Nova York ou Paris, também acharão em “O Homem de Constantinopla” uma obra que cumpre as expectativas. Para os leitores que procuram histórias “baseadas em fatos reais” – sobretudo os que se interessam por narrativas ambientadas no Oriente Médio – não vão se decepcionar com a acurácia das informações investigadas por José Rodrigues dos Santos. Mas para os mais exigentes, que além de uma narrativa magnética procuram personagens complexos e diálogos que flertam com a historiografia sobre os armênios e o genocídio, certamente ficarão mais satisfeitos com Hilsenrath ou Werfel.

Faço votos para que o livro seja publicado por alguma editora brasileira muito em breve , em edição adaptada para o português brasileiro, de modo a fazer companhia nas estantes e bibliotecas a livros da mesma temática como “Os 40 Dias de Musa Dagh”, “De Volta a Istambul”, “Gendarme” e “O Grito do Cordeiro“.

Resta-me agora encarar as 700 páginas da segunda parte da história: “Um Milionário em Lisboa”.

Nota: 8.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Autor: José Rodrigues dos Santos
  • Edição (Portugal): Gradiva, 2013

Últimas novidades do blog

Hoje estou aqui para comentar um pouco sobre algumas novidades que pintaram no blog na semana passada e, além disso, divulgar uma ótima notícia.

Talvez alguns já tenham percebido, mas o blog agora estendeu seu alcance para duas redes sociais: Facebook e Twitter. Desse modo, teremos mais meios de nos comunicar e, também, espaços para vincular notícias que não são apropriadas para o blog. Por exemplo, pelas redes sociais podemos anunciar o lançamento de algum livro ou quando algum filme entrar em cartaz nos cinemas, algo que não faria sentido aqui. Ademais, com a página no Facebook e a conta no Twitter vocês poderão ficar sempre ligados quando sair um texto novo. Deem uma olhada!

Mas o melhor mesmo ainda está por vir! Convidei um grande amigo, outro apaixonado pelo Oriente, a colaborar aqui no blog. Ele não só aceitou como já tem um texto pronto para lançar no decorrer da semana. E, acreditem, é material de primeira qualidade, vindo de um verdadeiro especialista. Dou, então, minhas boas vindas ao Heitor Loureiro. Fiquem ligados!

A Chave

A Chave [Capa]

Depois de um pequeno (tá bom, tá bom… grande) atraso – culpa de um relatório de pesquisa que tive que fechar nessas últimas semanas – trago-lhes o prometido terceiro texto falando sobre uma obra de Tanizaki. O livro que escolhi para lhes apresentar dessa vez é o magnífico A chave.

A chave é uma obra curta (creio que “novela”, ao invés de “romance”, seja a classificação mais apropriada), daquelas para se ler numa sentada. O livro, de certa forma, mistura o gênero epistolar com o – tradicionalíssimo no Japão – gênero de diários. Mas como afinal é possível essa mistura? Explico… Toda a narrativa gira em torno de dois diários: um do marido e outra de sua esposa. Acontece que diários são, em essência, escritos pessoais, que não são feitos para serem compartilhados com outras pessoas. Eventualmente acho que até podemos imaginar situações que uma pessoa deixe outrem ler o próprio diário, mas o caso contado no livro, contudo, é distinto. Esposo e esposa escrevem cada qual seu diário com o intuito deliberado que o cônjuge leia. A despeito desse propósito, porém, ambos fingem que não querem ser lidos e, mais do que isso, dissimulam o fato de que sabem que a contraparte lê às escondidas o seu diário. Resumindo: o marido lê o diário da esposa, a esposa lê o do marido, mas todos disfarçam tal ocorrência. Desse modo, um escrito que tem em sua origem uma intenção privada, passa a ser usado para a comunicação entre o casal, se aproximando, então, de uma troca de cartas.

Mas por que raios eles optaram por esse meio excêntrico de comunicação? Simplesmente porque os assuntos abordados feririam a lógica social e, portanto, eram entendidos por ambos como tabus. Sabemos que ainda hoje o Japão é uma sociedade que reprime a sexualidade (não à toa as bizarrices que saem de lá), algo ainda mais intenso na década de 1950, data do livro. Como então falar abertamente de sexo, fetiches, adultério e coisas do tipo? O meio indireto e dissimulado escolhido para o diálogo, logo, se torna apropriado para explorar possibilidades até então socialmente negadas.

Só que o bacana da obra não morre aí. Como os diários são manifestações de discursos diretos, nós leitores somos jogados em meio a um jogo tácito de manipulação, no qual até o silêncio é repleto de significados e não podemos acreditar em quase nada. E quando digo quase nada, eu digo quase nada mesmo! Quanto mais lemos o livro, mas vamos percebendo que ninguém ali é confiável. E isso torna o livro magnífico, pois cada leitor terá elementos suficientes para interpretações bastante plausíveis dos fatos.

A chave é uma obra ousada, evolvente, bem escrita que, além de deleitar, apresenta um enredo simples, mas rico em nuanças. Leitura recomendadíssima!

Nota: 9.0 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 鍵 (Kagi)
  • Autor: Tanizaki Jun’ichirō (谷崎润一郎)
  • Tradutor: Jefferson José Teixeira (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Companhia das Letras, 2000

Há Quem Prefira Urtigas

Há Quem Prefira Urtigas [Capa]

Quando li um livro do Tanizaki Jun’ichirō pela primeira vez, tive um choque. Até aquele momento todas minhas experiências com romances japoneses me apresentavam um mundo e uma mentalidade, digamos, “fechada”. Eram sempre personagens que se comportavam de acordo com o que é esperado da “face exterior” de um japonês. É verdade que aqui ou ali até podíamos enxergar o lado de dentro desses personagens e é igualmente verdadeiro que muitas vezes o “desnudar” desse lado que o japonês tem de manter oculto da sociedade era justamente o objetivo dos escritores. Todavia, todos caminhavam em direção a esse objetivo de forma bastante sutil. Com Tanizaki, no entanto, foi diferente, pois ele optara por uma abordagem mais direta, forte e sem rodeios. Imaginem, em plena década de 1920, um escritor oriundo de uma sociedade na qual o sexismo imperava (por sinal, até hoje ainda é bem forte) escrever a respeito de uma relação extraconjugal entre duas mulheres! Conforme fui lendo outros livros do autor, percebi que aquele tipo de abordagem se repetia quase sempre. Desnecessário dizer que um escritor competente como Tanizaki não escolheria esse caminho apenas para chocar. Há objetivos por trás dessa opção, mas não entrarei no mérito da questão, até porque hoje quero falar de uma de suas obras mais leves, quiçá a menos chocante delas.

Há Que Prefira Urtigas é a história de um casamento que, depois de alguns anos, só existe formalmente. Kaname e Misako já não têm atração um pelo outro e, portanto, um relacionamento real entre os dois já não é mais possível. A despeito de o casal ter percebido isso e até já terem se decidido pelo divórcio, nenhum dos dois toma o passo decisivo para o rompimento. Muitas coisas entram na conta: como o filho de dez anos lidaria com a separação, a posição dos dois perante a sociedade, as opiniões do sogro de Kaname, etc. A separação, todavia, é inevitável. Misako, por exemplo, já se relaciona com outro homem, caso não só sabido como apoiado por Kaname. Diferentemente de várias outras histórias do Tanizaki, essa é narrada em terceira pessoa e tudo leva a crer que não há espaços para manipulações na narração. Todos os personagens parecem ser expostos de maneira bastante honesta… Embora em terceira pessoa, contudo, a focalização frequentemente está em Kaname, personagem que funciona como um fio-condutor da obra. Bem, talvez não tanto condutor, pois ele é hesitante, indeciso, difuso, covarde até, eu diria. Não é tão difícil se irritar com ele vez ou outra. Isso, entretanto, não é um ponto negativo, pois faz sentido para o enredo esse perfil psicológico do protagonista.

Não é raro encontrarmos elementos que levantam dicotomias (muitas vezes suscitadas pelas personagens femininas da obra, embora não só por elas): Ocidente x Oriente, tradicional x moderno, velho x novo… Não me parece, porém, que Tanizaki pretendesse “escolher” um desses lados, como alguns críticos costumam sugerir. Para mim, o autor localiza a obra numa zona cinzenta intermediária entre os dois polos, tendo em Kaname o grande expoente desse aspecto de indefinição, talvez até uma metáfora do próprio Japão daqueles anos (década de 1920). Julgo Há Que Prefira Urtigas obra fundamental para todos que querem compreender um pouco mais do Japão.

Nota: 8.5 (entenda a nota)

Ficha técnica:

  • Título original: 蓼喰ふ蟲 [蓼食う虫] (Tade kū mushi)
  • Autor: Tanizaki Jun’ichirō (谷崎润一郎)
  • Tradutora: Leiko Gotoda (tradução direto do japonês)
  • Edição brasileira: Companhia das Letras, 2003